Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 155 | Ano 17 | Jul 2011
ELISA LUCINDA

Elisa Lucinda

Arte: Ricardo Machado

Arte: Ricardo Machado

O breu
meu eu
Deus meu
Alguém chamou minha mãe
e não pediu a mim
Alguém de algum deus, algum querubim
retirou-a de cena sem a minha permissão
Alguém arrancou-me o umbigo
sem falar comigo
Alguém de alguma misteriosa verdade
Puxou-lhe o fio da vida, a echarpe, a pipa, a idade
Alguém anjo a levou para compor outro coral
Alguém roubou de mim a sua voz
a sua música que era meu melhor vento
Adeus moqueca, adeus convento
alguém levou meu mundo, meu invento
minha bruxa boa, meu unguento
Estou ainda de vestido azul de bolinha
calcinha de babado, sentada na calçada, sozinha.
Minha mãe não está na cozinha, no piano, na aula, na vizinha
Alguém badalou meia-noite e a cinderela virou açoite, pernoite.

É breu, Deus… um buraco fundo, um vão sem chão, o infortúnio
Quero ao menos que, ao morrer o criador, não se vá também a criatura.
Está escuro, quero luz, dá-me a luz…
alguém desatarraxou daqui minha lâmpada maravilhosa
Agora não posso mais ter febre
Agora ninguém mais reza e não há compressa
Agora eu estou com pressa.

(Da série “Divalda Blues”)

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