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Nº 156 | Ano 17 | Ago 2011
LUIS FERNANDO VERISSIMO
VERÍSSIMO

Veríssimo

Arte: Ricardo Machado

Arte: Ricardo Machado

Gustave Flaubert recomendava aos escritores que levassem pacatas vidas burguesas e enlouquecessem na sua obra. Arthur Conan Doyle seguiu a receita de Flaubert ao contrário. Sua criação mais conhecida, Sherlock Holmes, era a personificação do pensamento racional e da lógica dedutiva e levava a vida de um correto cavalheiro inglês. Nem as suas excentricidades − ou o seu gosto por cocaína – destoavam muito do padrão vitoriano. E não há notícia de que Holmes tenha alguma vez recorrido ao sobrenatural para resolver um caso. Já seu autor era um irracional assumido, ligado em ocultismo, sempre pronto a acreditar em manifestações metafísicas, por mais improváveis que fossem.

No fim do século 19, a Inglaterra foi tomada por uma crença obsessiva em fadas. A nova arte da fotografia teve muito a ver com a propagação da mania, entre ingleses de todas as idades e todos os tipos, inclusive intelectuais e cientistas. Fotos de ninfas aladas borboleteando entre flores convenceram muita gente grande da existência do fenômeno, que chegou a ser assunto no Parlamento. E Conan Doyle foi dos primeiros a acreditar e defender a autenticidade das fotos e das fadas. E acreditou nelas até morrer.

Pode-se imaginar a reação de Sherlock Holmes ao saber das convicções do seu autor.

– Fadas, Watson. Ele acredita em fadas.
– Pelo menos ele nos poupou das suas crenças malucas, Holmes. Se bem que…
– O que, Watson?
– Sempre achei que havia algo de sobrenatural nos seus poderes de dedução.
– Bobagem, Watson. Uso apenas a razão e o senso comum com, talvez, um toque de gênio. Que, aliás, foi ele que me deu.
– Estranho caso de um escritor que concentrou a sanidade na sua literatura para poder enlouquecer na sua vida.
– Mais um dos muitos mistérios da condição humana, Watson.
– Onde você vai, Holmes?
– Buscar a sabedoria da cocaína. A única forma de metafísica que me permito.

APRÉS DRUMMOND

(Da série “Poesia numa hora dessas?!”)

Mundo, mundo, vasto mundo
se eu me chamasse Eike Batista
não seria uma rima
mas seria uma solução.

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