Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 156 | Ano 17 | Ago 2011
FRAGA

Fraga

Arte: Rafael Sica

Arte: Rafael Sica

Entre o século XIX e parte do XX, falar bem esteve na moda: as pessoas dialogavam elegantemente, bem trajadas no corpo e na língua, um só estilo a andar e tagarelar no passeio público.

Hoje já não é mais assim: o linguajar empobreceu, é visível no figurino, quer dizer, na falta que o figurino faz. Por isso, nos tímpanos e nas retinas, os andrajos da aparência e da linguagem.

Se a elegância no vestir influísse no falar, ou mesmo no vice-versa, a moda talvez pudesse retornar ao que era. Não digo nos moldes antiquados, mas num padrão em que o vocabulário mais refinado se harmonizasse com finas estampas.

Quer dizer, a moda seria verbal, com uso fashion das palavras: bastaria abrir um closet onde haveria prateleiras com dicionários, gramáticas e enciclopédias e, antes de se arrumar para sair, as pessoas escolheriam primeiro as palavras com que iam se comunicar. Ao completar a vestimenta, surgiria a harmonia. Discreto ou mais atraente, alguém disposto a deixar claro o seu modo de se expressar, desde o tecido da roupa à tessitura do palavreado.

Imaginemos lojas de departamentos, com os setores de linguagem cheio das novidades, lançamentos para as pessoas experimentarem novas expressões, verbetes coloquiais para trocar impressões na rua, no trabalho, nos eventos. Seria impressionante.

Na moda verbal, você poderia, a partir das coleções de estilistas-linguistas, adotar a roupagem vocabular que quisesse: descolado, formal, cool, retrô, casual, tudo combinando para as ocasiões, das mais falantes às mais contidas. Olhariam para nós e:

– Oh!, como vc fica chique quando abre a boca e discorre sobre isso ou aquilo! Onde adquiriu essa expressividade?

Sim, haveria também butiques, com fraseados bem costurados, com linhas corrigidas e revisadas.

Nessa hipotética sociedade, arrumada na ponta da língua, alguma pompa e circunstância poderia ser revivida, apenas para uma divertida encenação, como quem se veste para uma cerimônia, e não com essa sem- cerimônia em que todos os eventos se parecessem e todos matraqueiam sem finesse nenhum.

Assim, com essa facilidade de ter o look que quisesse a partir do rearranjo do próprio repertório, as pessoas ganhariam um ar de classe. Até as preposições e as conjunções seriam elogiadas como acessórios.

Nada é impossível: como os desfiles de moda viraram um carnaval, num show desses minha fantasia ganha lugar no SPFW. Nem tudo está perdido, as palavras é que andam mal-ajambradas.

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