Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 156 | Ano 17 | Ago 2011
WEISSHEIMER
MARCO WEISSHEIMER

Para Krugman, fracasso nas negociações da dívida pode repetir bancarrota da Grande Depressão de 1931

Foto: Brian Wilson / Pinceton University / Divulgção

Para Krugman, fracasso nas negociações da dívida pode repetir bancarrota da Grande Depressão de 1931

Foto: Brian Wilson / Pinceton University / Divulgção

Para aqueles que conhecem a história da década de 1930, o que está ocorrendo agora é muito familiar. Se alguma das atuais negociações sobre a dívida fracassar, poderemos estar perto de reviver 1931, a bancarrota bancária mundial que alimentou a Grande Depressão. Mas se as negociações tiverem êxito, estaremos prontos para repetir o grande erro de 1937: a volta prematura à contração fiscal que terminou com a recuperação econômica e garantiu que a depressão se prolongasse até que a II Guerra Mundial finalmente proporcionasse o ‘impulso” que a economia precisava’. A avaliação de Paul Krugman, professor de Economia na Universidade de Princeton (EUA) e Prêmio Nobel de Economia 2008, refere-se à atual situação da economia norte-americana que, segundo ele e outros analistas, pode ser qualificada de “dramática”, sem nenhum exagero.

E, em se tratando da economia da principal potência do planeta, o qualificativo “dramático” estende-se para a totalidade do mundo. A situação é tão mais grave na medida em que a União Europeia, outra potência econômica mundial, também atravessa uma seríssima crise com vários de seus membros encontrando-se à beira da insolvência ou já dentro dela. Uma crise simultânea nos Estados Unidos e na Europa era algo que não se via há muito tempo, se é que já ocorreu alguma vez nas dimensões atuais.

Crise conjunta nos EUA e Europa pode ser desastrosa
Outro Nobel de Economia (2001), Joseph Stiglitz, resume assim o tamanho e a natureza do problema: “Um fracasso na Europa ou nos Estados Unidos para voltar ao crescimento sólido seria ruim para a economia mundial. Um fracasso em ambos os lugares seria desastroso – inclusive se os principais países emergentes conseguirem um crescimento autossustentável. Lamentavelmente, a menos que prevaleçam as mentes sábias, este é o caminho para o qual o mundo se dirige”.

As consequências sociais dessa crise já são sentidas por milhões de pessoas. Segundo os dados mais recentes, nos Estados Unidos, cerca de 20 milhões de pessoas estão em situação de desemprego total ou parcial. Além disso, para quem está empregado, os salários estão deprimidos. Na Espanha, mais de 20% da população economicamente ativa está desempregada, o nível mais alto dos últimos 13 anos e a maior taxa de desemprego da zona do euro. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), há mais de 4 milhões de espanhóis desempregados há dois anos, desde o primeiro trimestre de 2009. Na Grécia, o desemprego atingiu 15,9%.

Crescimento do racismo e da xenofobia
As consequências políticas dessa crise econômica também já são sentidas na Europa e nos Estados Unidos, particularmente o crescimento da xenofobia e do racismo e da intolerância. O recente atentado na Noruega, praticado por um integrante da extrema-direita daquele país mostrou o potencial destrutivo desses discursos delirantes contra os imigrantes e os estrangeiros não-europeus.

Para Joseph Stiglitz, os responsáveis por essa situação têm nome e sobrenome muito bem definidos: “Há apenas alguns anos atrás, uma poderosa ideologia – a crença nos mercados livres e sem restrições – levou o mundo à beira da ruína. Mesmo em seus dias de apogeu, desde o princípio dos anos oitenta até o ano de 2007, o capitalismo desregulado ao estilo estadunidense trouxe maior bem-estar material só para os mais ricos no país mais rico do mundo. Ao longo dos 30 anos de ascensão desta ideologia, a maioria dos estadunidenses viu suas receitas diminuirem ou estancarem ano após ano”. O que estamos vivendo agora, acrescenta o economista, é resultado desse modelo.

Temor de guerra no Oriente Médio
Como se tudo isso não bastasse, cresce o temor de uma nova guerra na região mais instável do planeta, o Oriente Médio. Em setembro deste ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas deverá votar uma resolução reconhecendo a independência do Estado palestino nas fronteiras anteriores à guerra de 1967. Em Israel, a maioria política que governa hoje o país já disse que não aceitará essa resolução e que está disposta a todos os meios para evitar que ela se concretize. Em Tel Aviv fala-se abertamente na possibilidade de uma nova guerra. A combinação de uma severa crise econômica mundial e de uma escalada militar no Oriente Médio compõe um cenário sombrio para o segundo semestre de 2011.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS