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Nº 158 | Ano 17 | Out 2011
LUIS FERNANDO VERISSIMO
VERÍSSIMO

Veríssimo

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Eu sei que não é a questão mais premente do momento, mas para onde foram as mulheres ancudas e de coxas grossas? O que há alguns anos era um corpo bonito de mulher hoje não é mais. Durante anos, o padrão de mulher “boa” no Brasil foi a vedete tipo violão, com mais ancas do que peito. Que fim as levou?

O ocaso do tipo começou, segundo alguns estudiosos, com a derrota da Marta Rocha por excesso de quadris num concurso de Miss Universo, no tempo em que todo o país acompanhava nossas concorrentes em concursos mundiais de beleza como se elas fossem a Seleção. E Marta Rocha era um pouco como a Seleção de 50: não podia perder e perdeu, por milímetros.

A partir daí, teve-se o cuidado de enquadrar nossas misses nas convenções internacionais de beleza, embora persistisse a certeza de que o padrão violão era melhor e os estrangeiros não sabiam o que estavam perdendo.

Aos poucos, o tipo longilíneo se impôs e hoje nem entre as coristas – ou os travestis, esses nostálgicos de virtudes femininas em desuso – se encontra o formato antigo. Mais uma vitória do colonialismo cultural.

Talvez a evolução do maiô tenha alguma coisa a ver com o fenômeno. O advento do biquíni e da tanga condenou a coxa larga a adaptar-se ou sair da praia, numa amostra particularmente rude de darwinismo social. A transformação da roupa de banho trouxe outros benefícios para a humanidade e seus fundilhos. Você, eu não sei, mas ainda peguei o tempo dos calções infantis de pano que ficavam pesados e ásperos quando molhados e cheios de areia, e nos assavam as pernas e as partes. Pomada, muita pomada, e bichos-do-pé eram as consequências de um dia na praia. E, por falar nisso, que fim levaram os bichos-do-pé?

Até uma determinada época os “maillots” das moças eram feitos para disfarçar o fato de que elas tinham sexo. Nós sabíamos que elas tinham, se bem que não tivéssemos muita certeza de como funcionava. E ainda tem gente que suspira e diz “Bons tempos…”.

Redes e véus 
Outra coisa que desapareceu: rede de cabelo para homens. Jogador de futebol usava muito. Para proteger o penteado durante o jogo, talvez para melhorar o cabeceio. Quando eu me imaginava como jogador de futebol, era com rede no cabelo. E outra: véus rendados tapando o rosto das mulheres. Um resquício de pudor oriental que seguiu o caminho das coxas grossas, dos bichos-do-pé e das redes de cabelo masculinas para o esquecimento.

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