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Nº 162 | Ano 17 | Abr 2012
FRAGA

Por Fraga

Coluna: Fraga

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Hoje, 1º de abril de 2022, reencontrei um objeto precioso. Minha bola de cristal.

De tecnologia ultrapassada, senti saudades das previsões holográficas. Pus baterias e fui rever imagens. Focalizei 2012, o ano em que vivi o perigo de me entusiasmar com Porto Alegre.

Naquela época, para onde quer que olhasse, via sinais de avanços. Desde que a Fundação Iberê Camargo plantara o prédio futurista na curva do Guaíba, pressentia novos tempos. Será?

Dia após dia, uma adição: esfregar a bola de cristal, que se iluminava para mostrar que Porto Alegre poderia vir a ser menos provinciana. Algumas cenas se repetiam e me empolgavam: o Cais Mauá, o Centro Cultural Shofar (a ser erguido na Rua Casemiro de Abreu), a sede da Ospa e os estádios, o reformado Beira-Rio e a Arena do Grêmio.

Cada uma delas fazia a bola de cristal brilhar e a nitidez das construções não deixava dúvida: o futuro espantaria a pasmaceira da capital.

Nessa antevisão, o Cais Mauá iria mudar hábitos. O Rio Guaíba voltaria a ser de quem quisesse, num local em que se passaria o dia inteiro envolvido com atrações culturais, de lazer, entretenimento. Tudo porque o Jaime Lerner, mais que muitos gaúchos, acreditou na ideia. E ele foi além: recortou a orla entre o Gasômetro e o Cristal, de um jeito até então impensável: passear a centímetros do rio.

No bojo da bola de cristal, o Shofar resplandecia: era o mais audacioso dos projetos arquitetônicos. Concebido pelo genial Daniel Libeskind, que criou o marco zero em Nova Iorque, este Centro Cultural viraria um monumento internacional à cultura hebraica. Porto Alegre em dia com o mundo!

Ao se esboçar na bola, a imagem da sede da Ospa não me encantou: uma caixa de sapatos em meio ao verde, uma contradição entre fins, meios e ambiente. Mas, enfim, seria obra para projetar a música, e isso confortaria.

Os estádios também contribuiriam para a modernidade, por algum arrojo visual, que atualizaria a paisagem porto-alegrense. E daí a bola faiscava de sugestões pra capital: ponte nova, aeroporto repensado, metrô de verdade etc. Nem parecia Porto Alegre!

Assim empolgado, idealizei uma via expressa genial: um viaduto por sobre todo o riacho Ipiranga, a 5m de altura, que liberaria as marginais para um trânsito tranquilo. Mas a bola se recusou a incluir meu projeto. Avançado demais para aquele tempo, acho.

Bem, já guardei a bola, só serve pra atenuar o Alzheimer. Tenho que ir pra orla, meu lugar de nascença.

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