Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 163 | Ano 17 | Mai 2012
ELISA LUCINDA

Por Elisa Lucinda

Um bonde chamado seu beijo

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Quem encobrirá meu sono?
Beijará quem minhas costas no cotidiano?
Quem, no meio do frio, me cobrirá com lindas orelhas
e me dirá palavras indecentes nos ouvidos?
Quem, atrevido, me acordará com o ponteiro em riste
como um pássaro que não quer tudo
apenas o céu, a gaiola, o alpiste?
Quem que, quando eu dormisse, por mim zelasse
e eu, quando acordasse, lhe fizesse iogurtes brejeiros
massagens nos pés, cumplicidades de enlace?
Quem me agarrará por trás quando eu sair cheirosa do banho
e terá orgulho de eu ser guerreira
e perfumada ao mesmo tempo?
Quem em bom senso dirá que muito me
assanho
quem orientará a guerrilha diária a que me
proponho
quem estará inteligente e gostoso a meu lado
como está no meu sonho?
Quem, a quem me disponho a cozinhar e
fazer versos
quem racional e perverso cochichará
nos tímpanos de minha alma
a doce ordem, a venal palavra: Calma?
Quem com sua alma me mostrará um mar vertical?
Quem, meu igual, me apontará andores reais,
sem excesso de glacê no bolo
Com determinação de touro e a nobreza de poder ser banal?

Quem, coisa e tal, me beijará a boca e me enfiará as mãos
por debaixo da barra do segredo do vestido
e um dia passeará comigo no segredo
contido na Barra do Jucu?
Quem, senão tu que eu elejo, eu planejo,
pode habitar o lugar
a suíte que há tanto tenho reservado?
Quem, encomendado, pode me manter na
confiança dos edredons
enquanto não chega?
Quem, com certeza, me visitará num
outubourbon no gume da lira
de eu ser égua, cadela, mulher e sua?
Quem sobre mim sua, pinga, chove?
Quem que com lucidez resolve o abismo
simples de prever o risco de sonhar
pra nele mesmo cair, rir e se embolar?
Quem me dará a idéia de conceber
a saudade no sentido tático
quem, não estático, de longe me fará
cometer poemas de meia-noite?
Quem, sem favor, me estende os braços com rosas na mão
com explicação pro meu calor?
Quem, senão o meu doido bondinho
meus olhos acesinhos, meu comedor…
Meu triz meu risco
meu cristo redentor?

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