Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 164 | Ano 17 | Jun 2012
ELISA LUCINDA

Por Elisa Lucinda

Colunista: Elisa Lucinda

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Meu homem
escuta essa minha lira:
De noite suas costas são
a minha escuridão mais clara
rara, te vejo nítido roçando
os lábios do meu beijo.
Meu desejo circula pelo corpo como um som
e eu não concentro amor só na parte.
Parte, volta…
Minha abertura pequena se expande
profunda para onde não sei onde

Meu homem
escuta essa carícia:
Delícia sua mão
me pega pelo dorso
como se fosse a primeira mão
primeiro menino, primeiro selo, primeiro varão.

Meu erro de me estabanar me dá medo.
É cedo e o trem ainda não apitou.
Escuto no entanto a fábrica da cidade de São
Paulo
soando alto lá fora.
Deve ser manhã.
A claridade que assusta seus olhinhos azuis
vai morrer de medo de mim quando eu chegar.
Vou tirar meu amor da mala
exala tudo cheirando a amêndoas doces
colônia e creme de barba.
Tudo se acalmará em fogo
quando a nossa água definitiva
invadir o ar com seu cheiro de querer forte.
Sorte.
Vou chegando.
Distância some.

Escuta meu homem
essa minha cantiga
um dia me caso contigo
no fundo sou
uma menina antiga.

 

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