Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 164 | Ano 17 | Jun 2012
EDUCAÇÃO

Estudantes e professores concordam que não bastam políticas de ingresso, são necessárias ações que ajudem o estudante a permanecer no curso superior até o final
Por Jacira Cabral da Silveira
Estudantes defendem que, além das políticas de ingresso, instituições invistam em programas de apoio

Foto: Igor Sperotto

Estudantes defendem que, além das políticas de ingresso, instituições invistam em programas de apoio

Foto: Igor Sperotto

Grazi tem 17 anos e desde março deste ano usa 50% de seu salário para pagar metade da prestação do curso de Direito que faz numa universidade privada em Porto Alegre. A outra metade da mensalidade é paga pelo sistema de financiamento do Fies, do governo federal. Trabalhando 8 horas por dia, ela usa o tíquete alimentação para o almoço, mas antes de ir para a faculdade quando está “morrendo de fome”, é obrigada a passar pelo supermercado para comprar alguma coisa para comer, pois no bar na universidade os preços são muito altos. “Eu e algumas colegas já reclamamos dos preços, mas eles [funcionários da universidade] disseram que não podem fazer nada, porque quem estabelece os preços é o condômino do bar”, explica e complementa: “Um café custa R$ 2,50 e um salgado R$ 5,00”.

No domingo passado, dia 20, Grazi tentou aproveitar a oferta de uma das Livrarias Saraiva, no Barra Shopping, de R$ 200,00 o livro estava por R$ 150,00, mas nem ela nem o namorado (que também estuda com financiamento para Ensino Superior) tinham saldo no cartão para fazer a compra. O jeito foi adiar – mais uma vez – a compra do livro. Quanto ao horário para estudar, Grazi diz que vem desenvolvendo uma técnica que está ajudando muito: “Presto muita atenção nas aulas e anoto tudo e depois que chego da aula, vou para o computador e faço resumos. Mas preciso dormir, porque uma noite bem-dormida é fundamental para o outro dia”. Ela imagina como seria bom se tivesse como direito assegurado: “Pelo menos 1 hora de estudo em meu trabalho”.

Histórias como a de Grazi, que evidenciam o quanto os estudantes brasileiros estão financiando a educação no país, foi um dos temas abordados em recente encontro do Fórum Pela Gestão Democrática das Universidades Comunitárias do estado, que reuniu professores, funcionários e estudantes. Uma das pautas discutidas foi a defesa de políticas de assistência estudantil, como forma de assegurar a permanência dos alunos de baixa renda matriculados nas instituições de Ensino Superior privado brasileiras. “Infelizmente as instituições comunitárias não se sentem obrigadas a políticas de permanência estudantil, porém, algumas já estão tomando iniciativas neste sentido”, assegura o diretor do Sinpro/RS, Amarildo Cenci. Por isso, universidades como a de Grazi tiram o corpo fora na hora de oferecer alimentação com preços mais acessíveis.

Ana Lúcia da Silva Velho, vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) da Regional Sul, reconhece que os sistemas de financiamento para o ingresso no Ensino Superior no Brasil têm contribuído para ampliar o acesso de jovens de baixa renda nas universidades públicas e privadas. Segundo a dirigente, há dez anos 6% dos jovens brasileiros estavam cursando o Ensino Superior e hoje esse percentual é de 14%. Por outro lado, a estudante de Administração da Ufrgs entende que ainda há muito a fazer com relação ao ensino universitário brasileiro nesse sentido, e cita como exemplo países como o Chile, onde 25% dos jovens estão no Ensino Superior.

Mas uma das preocupações centrais do movimento estudantil nacional tem centrado atenção na permanência do estudante nas universidades, assim como foi discutido no fórum das comunitárias. Ainda que políticas como o Reuni, o Prouni e as Cotas (sociais e raciais) sejam iniciativas positivas, relatos de estudantes têm demonstrado que não bastam políticas de ingresso como também programas de apoio a esses alunos. De acordo com Ana Lúcia, encontros estaduais de estudantes cotistas têm denunciado dificuldade como: altos custos de material didático (livros, equipamentos, etc.); gastos com transporte, quando o estudante não mora no município onde estuda; falta de restaurantes universitários.

Nesse sentido, ela concorda com Amarildo: “Só existe política quanto a questões curriculares, mas falta uma política de assistência estudantil mais abrangente e eficiente”, alega a estudante. Enquanto nas universidades federais os alunos podem contar com alojamento, alimentação, auxílio-transporte e diferentes bolsas de apoio ao estudante, aqueles que cursam o Ensino Superior privado com algum tipo de financiamento, seja via governo ou via financiamento de origem privada, não têm a mesma estrutura que colabore com a sua permanência na universidade. “A lógica da maioria das universidades privadas, inclusive comunitárias, é o lucro”, justifica.

Para o presidente do DCE da Feevale, Thiago Morbach, que assumiu o cargo em janeiro, as universidades privadas precisam preparar-se para atender ao novo perfil do estudante que chega ao Ensino Superior através dos programas de acesso estudantil. Primeiro prounista [estudante Prouni] a assumir o cargo, ele afirma que os gastos vão desde o preço das fotocópias à alimentação: “No final a conta fica grande”, argumenta. Estudante de Jornalismo do quarto semestre, ele comenta que tem conhecidos que tiveram que abandonar os estudos por tais dificuldades.

A Universidade de Passo Fundo (UPF), uma das 15 instituições comunitárias de Ensino Superior no estado, e que tem 1/3 de seus alunos beneficiados com financiamentos ou bolsas, lançará no segundo semestre de 2012 o vale- alimentação para os alunos Prouni. Inicialmente serão concedidos 150 cartões no valor de R$ 160, que poderão ser usados tanto dentro quanto fora da universidade. Considerando que só de alunos com bolsa integral Prouni são 1,8 mil, ainda está muito longe do ideal. “Gostaríamos de investir mais, mas as comunitárias sobrevivem das mensalidades e não visam lucro”, explica o vice-reitor administrativo da UPF, Agenor Dias de Meira Junior. Hoje a universidade já mantém o chamado bandejão, com um custo de R$ 4 por refeição. Na avaliação de Agenor, cabe ao governo ampliar a política de assistência estudantil para beneficiar não apenas aqueles matriculados em universidades públicas, mas também nas comunitárias.

Desde 2011, a Unisinos também implantou sistema de vale- refeição para os alunos Prouni. De um total de 3 mil prounistas, 800 foram beneficiados com vales diários no valor de R$ 8, conforme o número de dias com aula. De acordo com o gerente de Ação Social e coordenador do Prouni, Nestor Pilz, esse é um programa em implantação, mas que o objetivo é ampliar o número de estudantes beneficiados. Por outro lado, aluno Prouni com bolsa 100% não tem direito às bolsas internas oferecidas na Universidade: “Porque já têm benefício integral”, alega.

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