Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 165 | Ano 17 | Jul 2012
FRAGA

Por Fraga

Colunista: Fraga

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Era uma vez outra Porto Alegre. O Parque Farroupilha era um triângulo escaleno verdejante. Ao ar livre e sob árvores frondosas, um oceano de grama. Hoje, é um arquipélago de trechos gramados. Não havia esses atalhos no chão pisoteado, essas trilhas feitas por apressados que querem chegar alguns metros antes, uns segundos mais cedo. O resultado é um mapa retalhado pela ansiedade coletiva, que rasga em todas as direções o pouco tapete verde que resta lá.

Havia um roseiral num miolo entre sebes, buquê a céu aberto. Teve destino espinhoso: ressecaram todas as roseiras, nenhuma foi replantada. Agora, quem atravessa a área, repara num vazio bem diagramado, plenamente tomado por ausências florais. Nos melhores e ensolarados dias, o recanto é nostálgico; nos piores e mais sombrios, melancólico.

Por toda a orla do parque rente à João Pessoa, a arte topiaria esculpia arbustos de buxo.

Assim era a moda no mundo, escultores de tesoura em punho redesenhavam as plantas: cresciam cubos, retângulos, bolas, ornamento que deixava claro o zelo municipal. Hoje, resistem alguns exemplares, meros arremedos. O abandono se encarregou de fazer esculturas esburacadas.

encarregou de fazer esculturas esburacadas. Aclamada como a capital nacional do verde, Porto Alegre só faz por merecer o título como uma herança urbana. Foram os antigos que plantaram fileiras de palmeiras imperiais em várias avenidas e praças. Como tudo que é vivo, estão com as décadas contadas. Em muitas ruas, o erro foi o plantio de precários cinamomos, em vez de plátanos, por exemplo. Vamos ter que buscar inspiração vegetal.

O mérito de todas as vias e zonas mais esverdeadas é mérito dos antepassados. Mas o canteiro central de certas avenidas demonstra que a cidade aprendeu com os paisagistas de outrora: lá se vê a fila indiana de guapuruvus, soberanos e altaneiros, a sombrear nossa época. Mas são árvores de curta existência, frágeis diante do clima. Quer dizer, foi um esforço paisagístico que logo vai exigir reposição. Valeu a tentativa.

Bem, nem só o lento poder público tem a ver com as deficiências. Para mostrar vocação pelo verde, alguma iniciativa individual o porto- -alegrense teria que ter. Boa parte da população a arregaçar mangas e plantar um pé que fosse diante de seus prédios. Tirando as alamedas, já envelhecidas, e a belezura do Parque Marinha, ainda se vê uma imensidão de ruas nuas.

O importante é saber, antes que seja tarde, se não estamos no limiar de uma nova hera.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS