Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 167 | Ano 17 | Set 2012
ELISA LUCINDA

Elisa Lucinda

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Muito bem, Senhor Acaso, eu não vim lhe perturbar.
Mas que o senhor podia se ajeitar,
e fazer em minha vida,
já a partir de amanhã cedo,
um espetáculo emocional das coincidências….
ah, isso podia!

Como? É assim:
eu saio de casa perfeitamente bonita sem defeito,
sem artifícios e sem esforço
(“dia esse que acontece de cem em cem anos”,
diz o fantasma de Flávio Cavalcanti que às vezes
visita o meu júri e domina o posto).

Encontro ele sem querer
(ele o amor, bem entendido).
E é naquela quitanda da rua de trás
que eu nunca entrei porque achava o dono amargo,
e por isso duvidava, dedutiva, do gosto de suas frutas.
Mas é lá, naquela quitanda.

Eu escolhendo bananas.
Chegou e foi direto lá porque não queria chegar assim,
de mãos vazias, sem ao menos uma penca pra me oferecer.
Achei lindo, nós em meio às amarelas dúzias.
Lá fora, à tarde, danando de beleza o natural cenário:
É rosa-âmbar de outono e o sol cai.
Não preciso dizer mais nada.

Sem neblina, um nítido encontro com a luz do real entre nós, Ele me beija e diz: “Minhas montanhas agora pertinho de mim, amor esquecido, eu nunca tinha pensado nisso, meu amor gira por você, minha linda negra flor do mar”. E me beija de novo. Pronto. É perna bamba, a fraqueza da carne. Eu já não respiro, pronto, lá estou eu, ainda que sereia, a me afogar.

Pois muito bem, Senhor Acaso, é de amor o meu mar, agora é contigo. O roteiro já está pronto. Só falta é gravar.

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