Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 168 | Ano 17 | Out 2012
SAÚDE

Na Unidade de Prevenção do Hospital Fêmina, em Porto Alegre, uma trágica constatação: cresce o número de mulheres grávidas que foram infectadas com o vírus HIV por maridos e namorados
Por Adriana Machado
Conforme Boletim Epidemiológico, a taxa de infecção pelo HIV na juventude deve aumentar

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Conforme Boletim Epidemiológico, a taxa de infecção pelo HIV na juventude deve aumentar

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A frase que dá título a esta matéria é emblemática. Costuma ser dita em consultórios de médicos por grávidas pegas de surpresa – trágica surpresa – de que estão com HIV positivo. Muitas dessas mulheres são encaminhadas para o Serviço Ambulatorial Especializado e Unidade de Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, do Hospital-Dia de Infectologia do Hospital Fêmina/ Grupo Hospitala Conceição. relacionamenreferência internacional neste tipo de tratamento, é formado por uma equipe multiprofissional composta de pediatras, infectologistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem, administrativos e assistentes sociais.

Mas afinal, quem são essas pacientes que, a cada dia, lotam as salas de espera da instituição? Segundo a enfermeira Elizabete Teles, do Hospital-Dia, são mulheres entre 15 e 60 anos, ou mais, das mais variadas profissões, classes sociais, donas-de-casa, com curso superior ou analfabetas. Algumas nunca saíram de seu bairro, outras viajaram o mundo. Neste grupo heterogêneo existe de tudo: de baixo poder aquisitivo até um bom nível cultural. Prostitutas e portadoras de drogas podem ser consideradas minoritárias. No último caso, a transmissão por compartilhamento de agulhas pelas usuárias de drogas injetáveis já é rara. A grande maioria foi infectada através do sexo desprotegido, onde o vírus é transmitido por parceiro fixo, em geral pelos maridos. “Neste momento de fragilidade, gestação mais a revelação do diagnóstico de HIV positivo, elas não costumam mentir. Falam sobre seus sentimentos que afloram diante desta nova e triste situação”, diz ela.

Prevenção no casamento

Elizabete Teles, enfermeira do Hospital-Dia de Infectologia do Hospital Fêmina | Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Elizabete Teles, enfermeira do Hospital-Dia de Infectologia do Hospital Fêmina

Foto: Igor Sperotto

Em conversas privadas, a enfermeira relata um comportamento de risco entre muitos casais. Maridos e namorados se recusam a usar camisinha e não aceitam que as parceiras se protejam por meio de preservativos femininos. Quando pegam o vírus do marido, a primeira reação delas é de raiva, de agressão física e até de abandono do lar. Esposas e namoradas não aceitam a traição. No caso contrário, quando as mulheres descobrem o diagnóstico na gravidez, e que o vírus não foi transmitido pelo relacionamento atual, os homens não se importam, perdoam, dão apoio e suporte, acompanham as consultas médicas e ajudam no tratamento.
“É raro eles não perdoarem”, revela Elizabete.

Joana Jobim, assistente social do Hospital Fêmina, reforça que nessa situação as mulheres vivem em constante conflito. Se não tem como se sustentar, a grande maioria acaba pedindo o divórcio. “Toda esta situação é como um soco no estômago. E afeta diretamente a sexualidade. As infectadas passam a ter nojo delas mesmas, acham que estão sujas por causa do vírus e nunca mais serão amadas”, revela a profissional. Segundo Joana, as portadoras do HIV positivo custam muito a se aceitar e, comumente, ficam com as suas vidas paralisadas. “É uma dor na alma, uma dor moral, pois acaba por destruir sonhos, afetando todos os valores até então preservados”, finaliza.

O infectologista Mário Peixoto, do Fêmina, observa que as mulheres costumam ter uma visão idealizada do sexo oposto e que as casadas ou em relacionamento estável, depois de um certo tempo, tendem a não se considerar em risco. “Não ser uma pessoa promíscua não significa nada. Conheço uma profissional do sexo que não tinha o HIV, usava preservativo com os clientes e acabou sendo infectada pelo parceiro fixo”, avisa. Em alguns casos, existe a possibilidade de os homens terem adquirido o vírus em relacionamenreferência internacional neste tipo de tratamento, é formado por uma equipe multiprofissional composta de pediatras, infectologistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem, administrativos e assistentes sociais. Mas afinal, quem são essas pacientes que, a cada dia, lotam as salas de espera da instituição? Segundo a enfermeira Elizabete Teles, do Hospital-Dia, são mulheres entre 15 e 60 anos, ou mais, das mais variadas profissões, classes sociais, donas-de-casa, com curso superior ou analfabetas. Algumas nunca saíram de seu bairro, outras viajaram o mundo. Neste grupo heterogêneo existe de tudo: de baixo poder aquisitivo até um bom nível cultural. Prostitutas e portadoras de drogas podem ser consideradas minoritárias. No último caso, a transmissão por compartilhamento de agulhas pelas usuárias de drogas injetáveis já é rara. A grande maioria foi infectada através do sexo desprotegido, onde o vírus é transmitido por parceiro fixo, em geral pelos maridos. “Neste momento de fragilidade, gestação mais a revelação do diagnóstico de HIV positivo, elas não costumam mentir. Falam sobre seus sentimentos que afloram diante desta nova e triste situação”, diz ela. Na Unidade de Prevenção do Hospital Fêmina, em Porto Alegre, uma trágica constatação: cresce o número de mulheres grávidas que foram infectadas com o vírus HIV por maridos e namorados Índices reveladores Peixoto revela que de 300 gestantes atendidas por ele no Fêmina nos últimos quatro anos, um por cento, apenas, tinha histórico de sexo com parceiros sem proteção e drogas injetáveis. Um terço das pacientes tinham tido, no máximo, dois parceiros sexuais durante toda a vida. Conforme dados do Ministério da Saúde, em 1987, eram 9,1 homens infectados com o vírus HIV para uma mulher. Em 2010, passou a ser de 1,7 homens para uma mulher. Na região Sul, os percentuais são ainda mais significativos: de 36 homens contaminados para uma mulher (1987) e 1,4 homens para uma mulher (2010). “Antes era uma epidemia entre o sexo masculino, agora é em ambos os sexos”, acrescenta. tos anteriores, e não saber de nada. “Pode não ter sido uma traição, todo mundo tem um passado”, completa.

Por isso, a importância de fazer o teste. O médico alerta que o exame negativo de hoje não é garantia de que o paciente não esteja infectado por uma relação sexual recente sem proteção. O ideal é repetir o exame em um período de três meses para poder afirmar de quem partiu a infecção. “Se o casal desconhece a existência do HIV e continua a não usar preservativos, vai reinfectando um ao outro e tornando o vírus mais resistente, sem falar da sífilis, hepatite etc.”, alerta. Peixoto vê uma banalização da Aids atualmente. hoje. “Mesmo com a distribuição de camisinhas, muitas pessoas não usam. No RS tem a questão do machismo, é cultural”, constata.

Demora no encaminhamento é obstáculo

“Sempre tive orgulho quando pegava o resultado dos meus exames, pois sabia que não tinha nada. Isso era muito importante para mim. Ter o vírus para mim era descobrir um lado feio e proibido, e, certamente, quem tivesse contraído o vírus seria castigado pela família, amigos e pela sociedade. Até que um dia conheci meu atual marido, que havia se relacionado com várias pessoas, e dele engravidei. Quando estava no meu sexto mês de gravidez consegui a primeira consulta de pré-natal, e com ela o teste de HIV. Abrir o envelope é correr o risco do resultado ser positivo, uma ameaça de morte! Hoje eu sei que ser portador não significa que vá morrer, mas o primeiro impacto surge como um terremoto, destruindo todos os sonhos de uma vida. Principalmente quando o resultado é revelado por um profissional que não preserva o sigilo, que não acolhe e nem orienta. Lembro que no dia da revelação eu estava me sentindo linda com uma blusa vermelha que guardo até hoje sem conseguir usar. Fui discriminada, me senti desqualificada. Estava diante de algo apavorante do qual eu não podia fugir. Mudei de endereço! Relatar nossa historia, nossa dor moral poderá ajudar a mostrar que há somente uma saída: a prevenção! Para evitar que nossos filhos, netos, bisnetos e tataranetos não se contaminem com o vírus do HIV. Eu não me preveni e me contaminei! Sonho sempre com a cura desta doença. Na verdade eu gostaria que tudo isso não passasse de um sonho ruim. Hoje penso que cumpri meu papel de mãe, mesmo sofrendo muito fiz o tratamento e ajudei meu bebê a negativar, e… caminho a passos lentos”. (Cíntia* nome fictício, 37 anos, comerciante) 

Um livro que tira todas as dúvidas

O livro intitulado Vivências de Gestantes e Mães é resultado de um projeto de pesquisa da Universidade Johns Hopkins (Estados Unidos), desenvolvido no Brasil com a cooperação de pesquisadores da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Nele, profissionais da saúde no Hospital- -Dia no Hospital Fêmina, do Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, reuniram as histórias, os anseios e as vitórias de um grupo de 30 gestantes e 35 mães de crianças de até dois anos atendidas na instituição.

Nas 108 páginas constam informações importantes sobre aleitamento, medicação, parto, por exemplo, além de depoimentos com a experiência de vida de mulheres gestantes que anseiam em gerar bebês saudáveis, além de dificuldades, problemas e a forma como os enfrentam. O livro dispõe ainda de páginas em branco onde podem ser feitas anotações (ideias, dúvidas, perguntas e comentários).

“Curiosamente, as mulheres HIV positivo expressaram seus sentimentos através da arte da palavra, que vai se cristalizando em uma dimensão sensível da existência. São resultados de uma caminhada comum que tem como principal motivador o desejo de mudança”, afirma Joana Jobim, assistente social do Hospital-Dia de Infectologia do Hospital Fêmina.

A partir da obra, distribuída para as pacientes no Hospital Fêmina, Joana criou uma dinâmica de grupo com as mães portadoras de HIV denominado Que dor é esta? O nome, comenta a assistente social, é provocativo. Os encontros acontecem quinzenalmente, com a presença de dez a 12 mulheres.

O tema é direcionado. Pode ser alguma dúvida surgida com a leitura do livro, ou então o assunto do momento. “Também abordamos questões relativas ao tratamento, adesão aos antirretrovirais e situações de conflito. Nas reuniões estas mulheres expressam seus sentimentos, anseios e sonhos. E os resultados finais são muito bons”, afirma Joana.

“O livro Vivências de Gestantes e Mães veio para abrir muitas portas para as mulheres infectadas na primeira gestação e acabaram de descobrir a doença. Você chega no hospital trazendo várias dúvidas e medos”, opina Ana.

Índices reveladores
Peixoto revela que de 300 gestantes atendidas por ele no Fêmina nos últimos quatro anos, um por cento, apenas, tinha histórico de sexo com parceiros sem proteção e drogas injetáveis. Um terço das pacientes tinham tido, no máximo, dois parceiros sexuais durante toda a vida. Conforme dados do Ministério da Saúde, em 1987, eram 9,1 homens infectados com o vírus HIV para uma mulher. Em 2010, passou a ser de 1,7 homens para uma mulher. Na região Sul, os percentuais são ainda mais significativos: de 36 homens contaminados para uma mulher (1987) e 1,4 homens para uma mulher (2010). “Antes era uma epidemia entre o sexo masculino, agora é em ambos os sexos”, acrescenta.

Minha filha nasceu linda e saudável

“Eu só soube que eu tinha o HIV em 1999, aos 17 anos, com a gravidez da minha primeira filha, através do exame pré-natal. No meu pensamento, eu peguei o vírus compartilhando em grupo agulhas de costurar utilizadas para fazer tatuagens. Eu tinha uns 13, 14 anos e vivia na loucura. Eu usava cocaína, cola e maconha. Soube depois que quatro ou cinco dessas pessoas morreram de Aids. Eu fui morar com um homem, fiquei grávida. Eu tomava remédios, ele me perguntou para o que era, e eu falei, daí já estava no sétimo mês de gravidez. Ela nasceu com oito meses de gestação. Eu comecei o tratamento tarde demais, por isso minha filha mais velha é soropositiva. Desde pequena ela sempre foi uma criança muito doente, as defesas do corpo ficam mais fracas. Depois tive mais três gestações e fiz todo o tratamento e a medicação. Por um ano, minhas filhas tiveram acompanhamento de especialistas. Os exames deram negativados e tiveram alta médica. O fato de eu nunca poder amamentar não me preocupa, não me estresso e não entro em depressão. Sei de muita mãe que não pode oferecer o leite do peito porque trabalha. Antigamente, sim. Se você estivesse magra, todas apontavam e diziam esta daí tem o HIV. Meu bebê está aqui comigo no colo, nasceu quatro dias atrás e pesa quase 4 quilos, linda e saudável, não tem nada. Tomei três tipos de comprimidos no início da gestação e quatro tipos no final. Horas antes do parto, programado e de cesárea, eu comecei a tomar AZT injetável, numa concentração bem alta. Minha filha toma o xaropinho, que é o AZT, por 42 dias. Minhas outras filhas de 11 anos, 9 anos e 5 anos sabem de tudo, não escondi nada. Minha família, por sua vez, não me procura. Não me tratam mal, mas sei que quando eu virar as costas vão passar desinfetante em toda a casa. Há quatro anos estou com o vírus indetectável e pretendo ficar assim para sempre”. (Maria* nome fictício, 30 anos, dona de casa).

Como funciona o tratamento
O Hospital-Dia de Infectologia do Fêmina oferece um serviço de excelência no atendimento humanizado. As pacientes têm acesso aos exames, medicamentos, consultas, consultorias, cirurgias – incluindo plástica reparadora e por problemas de auto-estima nos casos de lipodistrofia (depósitos de gordura debaixo da pele e que podem aparecer em diversas partes do corpo).

As mulheres grávidas usam antirretrovirais durante toda a gestação e horas antes do parto. Por 42 dias, o recém-nascido toma o AZT em forma de xarope. E apesar de tudo, as mães não desistem do tratamento. “O que ocorre são dificuldades enfrentadas por elas para tomar os medicamentos pelos efeitos adversos. Por vezes, há necessidade de reavaliar o tratamento pelo infectologista e mudar o esquema da medicação”, informa Elisabete. Em 2011, a taxa da transmissão vertical (da mãe para o filho) no Hospital-Dia de Infectologia do Fêmina foi de apenas 0,66%.

Depois do parto, as crianças precisam de acompanhamento especializado, pois foram expostas ao vírus durante a gestação. Elas são acompanhadas por um ano e meio a dois anos. Só terão alta da infectologia após dois resultados negativos. As mães não precisam fazer tratamento até as crianças completarem dois anos. O problema apontado pela enfermeira é que, após o parto, é comum as mulheres se descuidarem, pois voltam todas as atenções para os bebês. “É importante fazer o acompanhamento com infectologista e realizar exames da quantificação da carga viral e das células de defesa”, aconselha.

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