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Nº 169 | Ano 17 | Nov 2012
SAÚDE

Longevidade, tratamentos para disfunções e sexo sem proteção fazem dobrar casos de HIV
Por Adriana Machado

Foto: Shutterstock

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Engana-se e, muito, quem pensa que avôs e avós do Brasil afora não fazem sexo. E assim como em jovens e mulheres em relacionamentos estáveis, eles também não usam proteção. Por uma série de motivos comportamentais, o resultado da resistência ao uso da camisinha é o aumento em todo o país de idosos infectados com o vírus HIV. Dados do Boletim Epidemiológico de DST e Aids do Ministério da Saúde mostram que, entre 1996 e 2006, a taxa de incidência da doença passou de 3,6 para 7,1, representando cerca de 50% de aumento de casos na terceira idade. Os homens infectados na faixa etária acima de 60 anos subiu de 7,5 – por 100 mil habitantes – (em 1998), para 9,4 (em 2010). Já entre as mulheres, a taxa foi de 2,8 (em 1998) para 5,1 (em 2010).

Pessoas com idades avançadas iniciaram sua vida sexual quando ainda não existia a Aids. A doença sempre foi vista como transmissível apenas para adultos e jovens, o que pode ser comprovado pelas campanhas educativas veiculadas na mídia. “Isso criou a falsa noção de que os idosos estariam distantes de riscos e vulnerabilidades em relação à infecção pelo HIV, como se a população acima dos 60 não fosse sexualmente ativa”, acrescenta Ellen Zita, assessora técnica da Unidade de Direitos Humanos, Risco e Vulnerabilidade do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

Embora não existam pesquisas específicas recentes sobre a utilização de uso de preservativo entre idosos, percentuais do Ministério da Saúde apontam que apenas 37,5% dos indivíduos sexualmente ativos acima de 50 anos faziam uso de preservativos com parceiros eventuais, isto em 2008. Conforme a assessora técnica, ainda existem tabus que cercam a vivência da sexualidade em pessoas idosas. “Isto acaba limitando e dificultando a prevenção e o tratamento, incluindo tópicos sobre como usar e com quem usar o preservativo, aumentando a vulnerabilidade desta população”, diz ela.

Diagnóstico precocefacilita o tratamento
Infectologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Marcelle Duarte Alves reforça que o quadro clínico do HIV no idoso pode apresentar sinais e sintomas que podem ser confundidos com outras doenças típicas e mais frequentes nessa faixa etária, contribuindo ainda mais para a demora no diagnóstico. “Sabe-se que o HIV nesta população pode se apresentar de forma mais agressiva, com rápida progressão. Desta forma, identificar a doença o mais rápido possível e avaliar quanto à necessidade de tratamento antirretroviral são fundamentais”, alerta.

Marcelle diz que profissionais da saúde têm dificuldade em solicitar um exame anti-HIV para pessoas acima de 60 anos, acreditando que eles não apresentam uma vida sexual ativa. Porém, o tratamento da Aids na terceira idade segue as mesmas recomendações do utilizado para pessoas de outras idades. Alguns cuidados maiores são tomados devido à interação dos antivirais com medicamentos que o paciente já possa fazer uso, especialmente antidepressivos e anticoagulantes. “De uma forma geral, os remédios são muito bem tolerados e os idosos podem levar uma vida normal”, diz a médica.

Uso do Viagra e falta de prevenção
Autor do livro Sexo e Aids depois dos 50, o infectologista Jean Gorinchteyn, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, referência de tratamento de Aids em São Paulo, vem acompanhando de perto a evolução da epidemia da doença no Brasil. Constatou que muitas das pessoas da terceira idade sequer sabem colocar a camisinha, por dificuldades técnicas na sua utilização. O uso do preservativo pela terceira idade, informa Gorinchteyn, erroneamente costuma estar relacionado com a prevenção de uma gravidez indesejada e não a doenças sexualmente transmissíveis, entre elas o HIV.

O médico revela que com o uso de medicações de controle e tratamento de problemas de disfunção erétil, os idosos acabam se sentindo mais seguros, tendo um maior número de relações sexuais, aumentando as chances de contaminação. As mulheres, explica ele, quando entram na menopausa, tendem a diminuir o desejo sexual naturalmente. Os homens, por sua vez, mantêm relações com parceiras fora do casamento, e geralmente com mulheres mais jovens, contaminando a esposa. “Isto não significa que a viúva ou a separada, ou de qualquer estado civil, também não possa pegar a doença”, confirma o infectologista.

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