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Nº 169 | Ano 17 | Nov 2012
ENSINO PRIVADO

Em quatro dias de intensa visitação às instituições de ensino, os dirigentes do Sinpro/RS ouviram relatos sobre situações vividas, problemas e condições de trabalho
Campanha leva realidade do ensino  privado à opinião pública | Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Campanha leva realidade do ensino
privado à opinião pública

Foto: Igor Sperotto

Os professores aceitaram o desafio proposto pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul – Sinpro/RS na Semana da Consciência Profissional e se manifestaram sobre cincos temas que, segundo a categoria, provocam impacto negativo no desempenho do ensino privado do Rio Grande do Sul: excesso de alunos por turma, excesso de trabalho extraclasse, salário, adoecimento e violência.

“Mesmo o silêncio dos professores em função da presença de gestores e coordenadores da instituição na sala atestou o ambiente de constrangimento em que trabalham”, observa Glória Bittencourt, diretora do Sindicato. A iniciativa, segundo ela, foi avaliada como positiva pela direção do Sinpro/RS.

A Semana da Consciência Profissional ocorreu de 15 a 20 de outubro em mais de 150 instituições de ensino em todo o estado, envolvendo cerca de 5 mil professores. A campanha propôs a discussão sobre as condições de trabalho de forma individual e coletiva. “Os professores estão entendendo que para haver mudança de fato é necessária a participação de todos, inclusive dos próprios professores, protagonistas da educação de qualidade”, observa Naima Wadi, diretora do Sinpro/RS – Regional Santa Rosa. “O Sindicato tem seu papel e suas atribuições, mas os professores precisam pensar a profissão também de uma forma coletiva”. O diretor do Sinpro/RS, Marcos Fuhr, diz que recuperar a capacidade de falar, de dizer, de opinar sobre os seus problemas e soluções no ambiente de trabalho é importante. “Uma vitória na luta pela dignidade dos professores”.

O programa Conversa de Professor consiste em encontros mensais de professores com uma equipe multidisciplinar integrada e profissionais da Appoa, para tratar sobre as situações de violência contra os professores nas escolas da rede privada. O projeto integra uma série de atividades que visam dar atendimento aos professores vítimas de violência no ensino privado gaúcho, além de promover ações de prevenção e de valorização do docente. “O NAP está a serviço do professor na promoção de atividades que reforcem o seu protagonismo no processo de aprendizagem”, expõe Cecília.

O excesso de alunos por turma e o excesso de trabalho extraclasse foram os temas mais discutidos. Ainda há professores que acreditam que essa é uma condição da profissão. “Quem não quer, que não faça magistério”, disse um professor de uma universidade da Serra. “Instituições da Europa trabalham com 200, 300 alunos por turma”, comparou. No entanto, a maioria dos professores assegura que tanto o excesso de trabalho quanto o excesso de alunos por turma são danosos para a saúde dos professores e para a qualidade do ensino. “Alguém acredita que um volume gigantesco de trabalho fora da sala de aula, sendo realizado fora do contrato de trabalho, pode passar incólume?”, indagou um professor que atua em uma grande rede de ensino, com escolas na Educação Básica e na Educação Superior, em Porto Alegre e no interior. “Sai perdendo o professor, o aluno e a sociedade”, afirma. “E pior, o trabalho aumenta, mas o salário não”.

OPINIÃO PÚBLICA – Nesse mesmo período, o Sinpro/RS chamou a atenção da opinião pública para a importância do ensino privado no atendimento ao estudante (14,6% na Educação Básica e 79,5% na Educação Superior, segundo o Inep) e para as manifestações dos professores sobre os caminhos para melhorar a qualidade da educação. A campanha foi veiculada em várias rádios e bus door, no site do Sindicato e nas redes sociais, de forma a alcançar um público maior. “A sociedade precisa ouvir os professores, precisa acreditar de fato que educação de qualidade exige investimentos”, destaca Cecília Farias, diretora do Sinpro/RS e conselheira do Conselho Estadual de Educação do RS (CEEd/RS).

Silêncio no ensino privado 

É muito comum, no ensino privado, as visitas do Sinpro/RS serem acompanhadas de perto pelas direções das instituições ou seus representantes. Na Semana da Consciência Profissional não foi diferente. “Há tempos o ambiente escolar deixou de ser um espaço de debate para os professores”, destaca Marcos Fuhr, diretor do Sindicato. Uma grande parcela das instituições, segundo ele, cerceia o direito às opiniões e críticas. “Logo na escola, ambiente que deveria ser o palco do debate e da liberdade de expressão”.

O diretor do Sindicato – Regional Rio Grande, Ivo Mota, diz que foi um grande desafio os professores falarem sobre seus problemas, dentro da escola. “Atitude quase impossível em muitos lugares pela presença acintosa dos gestores das instituições”.

A direção do Sinpro/RS conta que em uma escola de Ensino Fundamental de Porto Alegre, uma diretora da escola justificou sua presença. “Não quero que escondam nada de mim”, disse.

“Não se muda a sociedade sozinho”

A afirmação é da professora Carmen Lucia Bezerra Machado, que participou do painel Profissão-professor – retomando o protagonismo docente, ao lado do professor Luciano Marques de Jesus, doutor em Filosofia. O painel foi realizado no sábado, 20 de outubro, e encerrou a Semana da Consciência Profissional. Socióloga e pós-doutora em Educação, Carmen falou sobre a decisão de “Ser ou não ser professor”. Segundo ela, a decisão pessoal pela docência passa pela ideia de que se pode mudar o mundo. “A gente faz a diferença sendo inteiro, mas não pode mudar a sociedade sozinho. Esse trabalho é coletivo”. Ela assegura que ser professor não é apenas uma escolha pessoal, mas do ambiente laboral, societário, colaborativo.

O professor Luciano Marques de Jesus promoveu uma reflexão sobre os cinco pilares da vida, que ele chama de balanço vital: saúde, trabalho, finanças, relacionamento e espiritualidade. Cada participante foi desafiado a escrever suas metas pessoais para cada um dos pilares. “É uma técnica que pode ajudar o professor a se planejar. Mas as metas devem ser objetivas, concretas, realizáveis, escritas de forma positiva e, principalmente, com prazos bem definidos para que não fiquem apenas na esfera do sonho”.

Depoimentos 

Manifestações de professores registradas na Semana da Consciência Profissional. As identidades foram preservadas.

SALÁRIO
“O professor busca trabalhar no ensino público pela estabilidade e para fugir da pressão da escola privada”. (Escola da capital)

“Tenho a impressão que a escola quer que a gente agradeça pelo salário. Como se fosse uma doação e não a remuneração por um trabalho”. (Região de Passo Fundo)

ADOECIMENTO
“Quando alguém fica doente, vem trabalhar assim mesmo ou precisa ele mesmo arrumar um substituto. Não tem apoio da direção”.
(Região de Pelotas)

“Deixo para marcar minhas consultas médicas nas férias. Não tenho outra opção”. (Grande universidade)

EXCESSO DE ALUNOS POR TURMA
“Tenho turmas de primeiro semestre com 70 alunos. É óbvio que a qualidade de ensino cai”. (Grande universidade de Porto Alegre)

“Precisamos nos resignar porque não moramos num país como Dinamarca, Alemanha etc. Precisamos aceitar nossa realidade e pronto”. (Serra gaúcha)

EXCESSO DE TRABALHO EXTRACLASSE
“Às vezes, parece que os professores não entram em férias em função das demandas para serem feitas nas férias”.
(Grande escola de Porto Alegre)

“Sou a favor da inclusão de alunos com necessidades especiais, mas a escola deve estar preparada e os professores também. A realidade é diferente. A escola não está preparada e sobra para os professores dar conta de tudo sozinhos. Impossível!”. (Bento Gonçalves)

VIOLÊNCIA CONTRA O PROFESSOR
“Voltei da licença-maternidade e a direção me chamou para uma reunião. Eles me demitiram”. (Zona norte de Porto Alegre)

“Nós descobrimos que os alunos criaram uma comunidade virtual para falar mal dos professores. Lá eles publicavam coisas sobre os professores e davam “adjetivos” para nós”. (Grande rede de ensino)

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