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Nº 172 | Ano 18 | Abr 2013
WEISSHEIMER
MARCO WEISSHEIMER

Por Marco Weissheimer

A Comissão Nacional da Verdade realizou uma audiência pública em Porto Alegre, no dia 18 de março. O encontro, no auditório da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), apresentou relatos e documentos sobre violações de Direitos Humanos ocorridas no estado durante a ditadura civil-militar instaurada pelo golpe de 1964 e também debateu as suspeitas que ainda cercam a morte do ex-presidente João Goulart e as ações da Operação Condor no Rio Grande do Sul.

As novas gerações desconhecem quase que por completo a memória e os acontecimentos deste período. Uma das faces cuja memória mais é sonegada diz respeito à participação de setores da sociedade civil no golpe de 1964 que derrubou o governo constitucional de João Goulart. Na audiência pública de 18 de março, o professor Enrique Padrós, chefe do Departamento de História, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da Ufrgs, defendeu a necessidade de pesquisar e trazer a público quais foram os interesses privados que ajudaram a construir o golpe e a ditadura. “Temos que falar dos empresários. É necessário falar do capital. Em interesse de quem esse golpe foi dado?”, indagou.

Padrós, juntamente com seus alunos, é um pesquisador desse tema. Ele é organizador, juntamente com Vânia M. Barbosa, Vanessa Albertinence Lopez e Ananda Simões Fernanda, de um extraordinário (e pouco divulgado) trabalho a respeito: A Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985), uma publicação em quatro volumes, resultado de uma parceria da Assembleia Legislativa com o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Ufrgs, em 2009. Nesta obra, em um artigo intitulado 1964: o Rio Grande do Sul no olho do furacão, Padrós e Rafael Fantinel Lameira resgatam a memória dos dias que antecederam e sucederam o golpe aqui no estado e a ação de alguns de seus principais protagonistas nos planos político, empresarial, midiático e religioso. Nunca é demais lembrar esse período, até porque alguns desses protagonistas seguem por aí, apresentando-se inclusive como vestais da democracia e das liberdades.

Foto: Ricardo Machado

Ildo Meneghetti, Paulo Brossard e os políticos golpistas

O então governador Ildo Meneghetti, do Partido Social Democrático (PSD), fez parte ativa do movimento golpista. O que pouca gente sabe é que, no dia do golpe, Meneghetti fugiu de Porto Alegre para Passo Fundo, com medo de uma mobilização das forças de oposição ao golpe. João Goulart esboçou, de fato, uma tentativa de reação, que durou apenas dois dias. No dia 2 de abril, o presidente retirou-se de Porto Alegre e, no dia seguinte, Ildo Meneghetti retornou de Passo Fundo, fazendo uma entrada triunfal na capital, acompanhado do recém- -nomeado comandante do III Exército, general Mário Poppe Figueiredo, e cercado de veículos militares do Exército e da Brigada Militar.

Uma das primeiras medidas de Meneghetti, após o golpe, foi requisitar as emissoras de rádio e televisão sediadas na capital para evitar que se repetisse a organização da Cadeia da Legalidade. O então governador não hesitou em implantar a censura e o controle estatal dos meios de comunicação para evitar uma reação ao movimento golpista.

Na Assembleia Legislativa, Meneghetti contava com o apoio da bancada da Ação Democrática Popular, bloco de partidos conservadores que governava o estado (PSD, UDN, PL, PRP e PDC). O então deputado Paulo Brossard tomou a iniciativa de apresentar um requerimento contra o presidente João Goulart e em defesa da “união dos democratas para salvar a democracia do comunismo e da demagogia”.

Os empresários golpistas

No plano empresarial, o golpe civil-militar teve ativa participação das principais entidades de classe do setor. Plínio Kroeff e Fábio de Araújo Santos, presidentes, respectivamente, da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) e da Federasul, lideraram o braço empresarial do golpe contra aqueles que, segundo eles, “procuravam solapar o regime através da subversão”.

O papel do Correio do Povo

Outro aliado-chave do golpe foi o jornal Correio do Povo, na época pertencente ao grupo Caldas Junior, que assumiu uma postura crítica violenta contra João Goulart, chamando-o de “agitador, violador da democracia, demagogo e de querer instaurar um ‘neoperonocastrismo’ no Brasil”. Mais tarde, o jornalZero Hora viria a se somar ao braço midiático pró-golpe, ocupando o lugar da Última Hora, fechado pela ditadura por apoiar João Goulart.

No dia 15 de fevereiro deste ano, a EGR já assumiu a gestão dos pedágios comunitários de Portão, Coxilha e Campo Bom, que administram 220 quilômetros de malha viária no Estado. Ao assumir essas primeiras praças de pedágio, o presidente da EGR, Luiz Carlos Bertotto, defendeu o modelo dos pedágios comunitários, destacando que eles foram os únicos que investiram recursos para duplicar rodovias e seguem investindo, como no trecho entre Taquara e Rolante. Até maio deste ano, a EGR deverá assumir a gestão das 11 praças de pedágios que estavam nas mãos da iniciativa privada.

A atuação de Dom Vicente Scherer

A Igreja Católica também desempenhou um papel ativo durante todo o processo de construção do golpe, principalmente através do então arcebispo de Porto Alegre, Dom Vicente Scherer, que, por meio de missas, artigos de jornal e do seu programa de rádio A voz do pastor, associava as reformas sociais propostas por Jango ao “avanço do comunismo materialista e ateu, contrário à tradição católica e cristão do pacífico povo brasileiro”.

Esses são alguns episódios e protagonistas de um período que pisoteou a democracia e os direitos humanos e cuja história ainda está para ser contada como deve para que as atuais e futuras gerações possam olhar para o presente com a consciência de como ele foi forjado.

 

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