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Nº 172 | Ano 18 | Abr 2013
SAÚDE

Cresce preocupação de especialistas com a prescrição de remédios para crianças e adolescentes visando o sucesso escolar a partir de diagnósticos errados

Foto: Igor Sperotto

Igor Sperotto

Igor Sperotto

Se antes as reuniões com a professora ou com o setor pedagógico resultavam num acréscimo no orçamento familiar para custear aulas particulares, nos últimos anos o resultado desses encontros tem aumentado a conta na farmácia depois do diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade (TDAH) em crianças e adolescentes. Se no primeiro caso era muito difícil a criança sair prejudicada, no segundo, o perigo de uma prescrição médica errada pode comprometer o futuro do estudante.

No Brasil, segundo documento publicado pelo Conselho Federal de Psicologia, o metilfenidato, substância dada para crianças e adolescentes com a pretensão de diminuir o TDAH na escola, subiu de 70 mil caixas vendidas em 2000 para 2 milhões de caixas em 2010, inserindo o Brasil no segundo maior consumidor dessa droga no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos, que, de acordo com o Schiler Institute, mais de 5 milhões de crianças e adolescentes tomam Ritalina entre os norte-americanos. O metilfenidato é conhecido comercialmente como Ritalina, do laboratório Novartis Biociências, e como Concerta, do laboratório Janssen Cilag, subsidiária da Johnson & Johnson.

De acordo com especialistas, é comum uma criança mudar seu comportamento, ficando agitada muitas vezes. Isso pode ocorrer devido a vivências perturbadoras na família como um pai que bate na mãe, um luto recente de alguém afetivamente importante, ou uma mãe extremamente ansiosa. Muitas dessas situações podem estar por trás de um diagnóstico equivocado de TDAH, e a medicação, nesses casos, vai mascarar o problema real, impedindo que a criança elabore tais situações que estão impactando fortemente sua vida.

Elnora de Paiva Ayres, coordenadora do Centro de Orientação ao Escolar (COE), adverte que uma depressão não tratada “é gravíssimo”, podendo acarretar sequelas importantes na adolescência. “Uma dessas consequências é o abuso de drogas”, diz. O COE conta com uma equipe interdisciplinar que avalia e diagnostica crianças e adolescentes com dificuldades no aprendizado. O serviço é terceirizado e funciona na Santa Casa de Misericórdia, vinculado ao Hospital da Criança Santo Antônio, em Porto Alegre.

Por outro lado, o uso de drogas nessa etapa da vida também pode estar ligado à falta de extraclasse@sinprors.org.br Por Jacira Cabral da Silveira diagnóstico e tratamento adequado de transtorno na infância. Com especialização em dependência química, Elnora cita estudos internacionais onde se constata um número elevado de jovens e adolescentes abusadores de cocaína e de maconha que tiveram histórico de transtorno de hiperatividade não detectado na infância e não tratado, acarretando problemas de aprendizagem e evasão escolar.

Ou seja, tanto o diagnóstico mal feito quanto o não realizado têm repercussões danosas na vida de crianças e jovens, e que vão além da dificuldade de aprendizagem ou do fracasso escolar.

ESCOLA – Em junho de 2011, o Forumadd, grupo interdisciplinar contra a patologização e medicalização da infância, da Argentina, e o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, do Brasil, publicaram uma carta propondo ações na América Latina, tendo como um dos focos a medicalização antes da idade adulta: “É alarmante o número de crianças e adolescentes medicados por TDA/TDAH sem que se formulem perguntas sobre as dificuldades que apresentam os adultos para acolher, transmitir, educar e sobre o tipo de estimulação, valores e ambiente a que estão sujeitos essas crianças dentro e fora da escola. Ou seja, supõe-se que a criança é o único ator no processo de aprendizagem”.

Diferentes depoimentos ratificam as declarações do documento. Melina (nome fictício) nos últimos cinco anos trabalhou de monitora num colégio particular de educação básica, em Porto Alegre, que atende mais de mil alunos. Formada em Pedagogia, além de acompanhar a circulação dos corredores, muitas vezes substituiu professores desde a educação infantil ao ensino médio. Jovial, sempre teve grande empatia entre os alunos, em especial com os adolescentes que segredavam sobre o tédio de algumas aulas: “Déficit de atenção que nada. A escola ainda está no século 18, e a universidade também não prepara o professor para lidar com esse jovem”.

“Eles chegam com cara de criança, redonda e rosada; depois aparecem com a pele ressecada porque dormem mal, comem mal”. Essa transformação ocorre, segundo ela, porque muitos desses pré-adolescentes ficam até tarde na frente do computador, acordam na hora de ir para a escola, e acabam tendo mais um motivo para não prestarem atenção em aula. No caso dos menores, o fato de morarem em apartamentos e serem geralmente filhos únicos, transforma a sala de aula num acontecimento, podendo deixá-los mais agitados.

A psicóloga Fabíola Colombani aborda outro aspecto que julga preocupante na vida escolar: falta de diagnóstico consistente. Em 2010 ela lançou o livro A vigilância punitiva: a postura dos educadores no processo da patologização e medicalização da infância, baseado na sua experiência em psicologia escolar, quando recebia muitos professores que encaminhavam alunos diagnosticando TDAH. Ela também critica o que chama de cobrança contraditória com relação à criança, quando lhe é exigida uma agenda repleta de atividades e, por outro lado, é taxada de hiperativa em sala de aula porque não se comporta. Neste sentido, sugere que o aluno seja visto como fruto também de um sistema educacional que precisa ser analisado.

DIAGNÓSTICO – Para minimizar essa desinformação sobre TDAH e suas consequências, começa neste mês de abril uma caravana por todo o estado durante a qual profissionais do COE estarão realizando encontros com pais, portadores de transtorno, professores e profissionais da saúde, prestando esclarecimentos com relação a diagnóstico e tratamento, sua necessidade e equívocos.

Segundo Elnora, de cada cem pacientes atendidos no COE, 85% não tem nada e apenas 4% tem realmente um transtorno de déficit de atenção, os demais são casos de epilepsias em geral e outras patologias de desenvolvimento. “E as mães vêm e querem remédio. Esse é o nosso problema”. Ela perde muito paciente por isso, por se negar a ministrar medicação. “Remédio é para quem tem doença ou tem transtorno”.

Entretanto, a neurologista ressalta a importância de pais e professores saberem o que realmente ocorre com a criança que apresenta déficit de atenção. As informações que nos chegam através dos lóbulos temporais atuam como um grande processador de informações. Para que a passagem das informações ocorra com perfeição através dos lóbulos cerebrais, as vias precisam estar maduras e prontas, mas no caso de crianças com TDAH esse amadurecimento é mais lento, e o medicamente auxilia nesse processo.

Por isso, quando há prescrição de medicação para TDAH, o objetivo não deve ser imobilizar a criança, mas deixar que o remédio cumpra sua função: “Acontece que a filosofia da coisa está errada, estamos usando uma medicação não para a criança ficar quieta em sala de aula e sim para ajudá-la a controlar uma dificuldade no controle da atenção e da impulsividade que a impede de poder aproveitar o aprendizado”, indigna-se.

Para a neurologista, uma das cinco especialistas brasileiras em TDAH convidada a participar este ano do encontro anual da Associação Europeia de Distúrbios, não está havendo uma medicação desenfreada, mas errada em função de falta de diagnóstico correto. E o que dá margem a tantos erros, de acordo com a especialista, é o fato de o déficit de atenção, assim como outros transtornos de aprendizagem, serem resultado de um diagnóstico clínico. Não existe nenhum exame, nenhum Raios X que diga que uma pessoa, seja criança, adolescente ou adulto tenha déficit de atenção, ou outro distúrbio de aprendizagem. Um diagnóstico para ser eficiente, especialmente no caso de crianças, precisa de muita observação, inclusive da família.

Epilepsia do tipo Ausências

Enquanto as atenções se concentram naqueles que fazem barulho e atrapalham em sala de aula, aquela criança quietinha que não incomoda ninguém, segue despercebida. Muitas vezes, entretanto, se essa criança chega a um consultório com suspeita de TDAH, pode haver surpresa e ser diagnosticada epilepsia do tipo Ausência, geralmente confundida com falta de atenção. Nesses casos, a criança pode ficar quietinha dentro de sala de aula, sair do ar, voltar, e a professora chamar sua atenção porque ela não copiou o que estava no quadro.

De acordo com a neurologista e coordenadora do Centro de Orientação ao Escolar (COE), Elnora de Paiva Ayres, a Ausência pode chegar provocar cem ‘apagões’ num espaço de tempo de 1 hora. Mas passa despercebido porque a pessoa, criança no caso, não desmaia, nem se agita, e em geral a criança que chama a atenção é aquela que se agita, que atrapalha em sala de aula, “e geralmente o que chega rápido para nós [no COE] são os agitados”. E os índices são alarmantes para tanto desconhecimento: em torno de 8-10% da população de quatro a dez anos que nos procuram por suspeita de “Desatenção” terão diagnóstico de Ausência”, revela a especialista. Nesses casos, a medicação correta é um anticonvulsivante.

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