Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 172 | Ano 18 | Abr 2013
FRAGA

Por Fraga

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

A velhice é ótima para empobrecer o vocabulário. Por exemplo: só falar de achaques e caqueradas.

Mas não me queixo do meu linguajar ou da própria língua. Fora o defeito da ponta (esse Triângulo das Bermudas da memória, de onde some tudo que estou prestes a dizer), continuo falando o português que adoro, aprendido num memorável 3º ano primário. A cada dia descubro palavras novas, e algumas são tão insistentes que é de lamentar tímpano não ter pálpebras ou lábios.

Agora é a vez desse chatíssimo ômega 3, que a três por quatro soa em papos junto ou longe da mesa. Você elogia um ingrediente qualquer num molho ou fruta na sobremesa, e lá vêm hosanas a ele. É um estraga-prazer esse tal de ômega 3. Se intromete na avaliação do deleite do comensal e exige o politicamente correto da saúde: em lugar de frisar o saboroso, se salienta o saudável. Tudo bem, desde que não haja plantão médico em todas as refeições!

E toca discurso em favor dos ácidos graxos carboxílicos poli-insaturados, credo em cruz. E vá elogio aos essenciais, apesar de nem todos serem do tipo bom – palmas ao de cadeia longa, Deus nos livre dos de cadeia curta. Já que tem cadeia no assunto, os profetas prolixos do ômega 3 mereciam algemas silenciadoras.

Querendo ou não acumular informações inúteis ao paladar, o pavilhão auricular virou depósito compulsório sobre benefícios do ômega 3. Você quer apenas se maravilhar com bacalhau, salmão ou atum na boca e o informante ao lado despeja dados enciclopédicos no seu prato: que só os peixes de águas profundas oferecem o melhor dos ômegas 3, que só o salmão selvagem nos dá ômega 3 e o de cativeiro deve ser evitado, tadinho.

E ficamos sabendo, contra a vontade de nos ocupar com aspectos insípidos da comida, que os ômegas 3 menos adequados à saúde são encontrados em óleos de soja, girassol, milho, logo esses, que lotam as gôndolas dos zaffaris da vida e frigem a boia, sadia ou não. Tem mais: em vez de atentar para as delícias dos quitutes, os comentários recaem sobre as dosagens dos ômegas 3 nas verduras. São loas pro brócoli, rúcula, couve, espinafre., que já eram chatos bem antes desse márquetingue prescritivo.

Tudo porque tá dito que o ômega 3 é o caminho pra longevidade, pro combate à depressão, pra melhorar o sistema cardiovascular e prevenir doenças coronarianas, blablablá. Por isso a indústria fatura ômegamente.

Mas falar do mal que o ômega 3 faz pros tímpanos ninguém fala. Argh!

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