Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 173 | Ano 18 | Mai 2013
PALAVRA DE PROFESSOR

Por Marcelo Frizon*

Parece que está virando tradição: desde sua modificação, em 2009, todo ano ocorre algum problema envolvendo o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Até 2008, o Enem era uma avaliação de diagnóstico do ensino médio brasileiro. A intenção era apenas saber se os conteúdos ensinados estavam sendo aprendidos.

A partir de 2009, o Exame passou a ser uma das principais portas de acesso ao ensino superior, o que acabou acarretando uma lógica cruel para estudantes, professores e direções escolares, afinal passou-se a classificar os estudantes e, por consequência, as escolas e seus professores. Num estado como o Rio Grande do Sul, no entanto, o Enem nunca teve muita força, graças a vestibulares como o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), que o utiliza apenas como parte de sua nota (embora não seja fundamental fazer o Enem para fazer o vestibular da Ufrgs).

Mesmo assim, professores vêm sendo cobrados a preparar seus alunos para o Enem. Nada mais justo, é claro, mas como preparar nossos estudantes para uma prova sem nenhuma credibilidade? Em 2009, a primeira prova da nova fase do Enem vazou na internet. Em 2010, algumas provas foram trocadas. No ano seguinte, algumas questões foram anuladas porque tinham sido testadas com alunos de uma escola de Fortaleza: um professor recebeu as questões do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para testá-las com seus alunos e devolvê-las, mas ninguém do Instituto informou a esse professor que as questões não podiam ser copiadas e reproduzidas em suas apostilas. E, como ficamos sabendo em março, algumas redações tiraram nota máxima na última edição do Enem mesmo tendo apresentado erros crassos de ortografia. Além disso, algumas receberam notas medianas apesar de apresentarem trechos, como o hino do Palmeiras ou uma receita de miojo, que serviriam de justificativa para zerar tais redações.

É possível levar uma prova assim a sério? Como ter certeza de que se cobrará o que é ensinado corretamente e não aquilo que o Inep entende que é o correto? E como acreditar que o ranking de escolas corresponde à verdade? Afinal, o que o aluno aprende não depende apenas de um bom professor ou de bons estímulos familiares: para classificar as escolas seria necessário averiguar seu tamanho, quantos banheiros ela tem, quantos alunos e quantos por turma, quantas quadras de esporte, bibliotecas e o número de livros, quantos laboratórios (de ciências, de informática etc)…

* Professor de Língua Portuguesa, Redação e Literatura das escolas La Salle Dores e Santo Antonio.

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