Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 174 | Ano 18 | Jun 2013
FRAGA

Fraga

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Pouca gente sabe, mas, a bordo das naus que descobriram o Brasil, além do Álvares havia alguns da família Alvarás.

Após o desembarque, os Alvarás viram que os índios chamavam o lugar de Pindorama. Pediram o registro aos índios, que deram de ombros. Foi aí que os Alvarás perceberam o potencial cartorial daqui.

A eterna fatura começa com o primeiro nome oficial do território descoberto, Terra de Vera Cruz. Que não pegou. Como o povo era inexperiente com alvará, o nome expirou em um ano apenas. Aí, para renovar, os Alvarás instituíram o superfaturamento. Que pegou. Isso, só pela mudança no meio, Terra de Santa Cruz. Santificada alteração: rendeu três anos de royalties aos Alvarás.

Para ampliar os ganhos nominais, os Alvarás só tiveram que olhar ao redor, para a abundância e as propriedades do pau-brasil. Os Alvarás logo capitalizaram a popularidade da lenha e da tinta – propuseram outra troca, essa de longo prazo. Ia exigir, claro, certidões seculares, pagáveis em berço esplêndido. De 1503 a 1824, os Alvarás enriqueceram e os descendentes se locupletaram. Assim, os Alvarás e os alvarás se espalharam por todos os lados e coisas.

Organizados, os Alvarás implantam o sistema de arrecadação por ordem alfabética. Para dar ideia da rentabilidade com todo tipo de licenciamento, basta a letra A.

O alvará mais certeiro foi sobre a alvorada. Era de baixo custo, mas o rendimento vinha na quantidade, afinal, todo dia tem alvorada. Quem não pagasse corria o risco de viver no dia anterior.

E como os lugarejos cresciam, as alvenarias tinham alvarás. Se quisessem lençóis mais brancos, alvarás para os alvejantes, assim como para o alvaiade dos sapatos. Queriam colmeias? Alvarás para os alveários.

Nos transportes, principiaram por alvarás para embarcações de carga e descarga, as alvarengas. E daí para carroças e carretas; e os trens, carros, ônibus e aviões, quando viessem, que se preparassem para as pilhas de alvarás!

Na saúde, os alvarás taxaram antes de tudo os alvéolos: impossível respirar sem eles, e assim a população passou a pagar pela anatomia e fisiologia. Hoje, existem alvarás até para certas doenças; sem eles, ninguém adoece.

O estado de espírito também sofre: alvarás para o alvitre e o alvedrio, e até para as alvíssaras. Isso tudo causa muito alvoroço, por isso já precisa alvará para se alvoroçar. A vida esportiva, inclusive é afetada pelos alvarás: experimente ser alvinegro, alviverde ou alvirrubro sem licenciamento!

Meio dona do país, a família Alvarás taxa de A a Z. Pela ganância, são capazes de tudo, como se viu recentemente na letra B, de boate.

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