Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 174 | Ano 18 | Jun 2013
ECARTA
ARTIGO

Por Maria Amélia Duarte Flores*

Foto: Gilmar Gomes/Sec. Tur. Bento Gonçalves/divulgação

Gilmar Gomes/Sec. Tur. Bento Gonçalves/divulgação

Gilmar Gomes/Sec. Tur. Bento Gonçalves/divulgação

Dia do Vinho é cultura, identidade do local, da planta, das pessoas que colhem. É aula de geografia, história, turismo, física, química, biologia, arquitetura e bem-estar: tudo em taças e adegas, bons livros e paisagens. Viajar, degustar é viver o aprendizado.

O turismo do vinho no Brasil acompanha a história das imigrações. Sendo o vinho considerado pelos imigrantes italianos na Serra Gaúcha um alimento, trataram de cultivar a videira: tentaram viníferas italianas, francesas. Depois, mudas americanas. Subiram morros, foram às margens de rios, aplicaram diferentes formas de cultivo, traçando paisagens únicas, como vinhedos delimitados com plátanos no interior da Serra, únicos no mundo. Não pensaram em negócios, apenas subsistência. Amigos e parentes em outras partes do Brasil descobriram esta produção, passaram a encomendar, buscar diretamente na origem.

Hoje o vinho está espalhado não só pelo Rio Grande do Sul, mas também por todo o Brasil. É importante não apenas em aspectos culturais, mas econômicos. Em muitas regiões está surgindo como nova forma de renda. É tamanha sua importância que, através de lei estadual, criou-se o Dia do Vinho (primeiro fim de semana de junho), onde, além de as empresas abrirem suas portas, ocorrem eventos alusivos em todo o Estado.

Assim como regiões já tradicionais do Estado, a Serra Gaúcha, por exemplo, novas áreas estão surgindo e desenvolvendo a cultura da uva e vinho. Pouco conhecidas, estão ainda explorando suas potencialidades. Conheça mais sobre estas novas regiões:

CAMPANHA GAÚCHA – O plantio de vinhedos na Campanha começa nos anos 70, quando surge a “Almadén”. Clima seco no verão, estações do ano definidas e tipos de solos propiciam cenário ideal para a uva, com mecanização. Abrange Alegrete, Bagé, Candiota, Dom Pedrito, Itaqui, Maçambara, Quaraí, Rosário do Sul, Santana do Livramento e Uruguaiana. É região com hábitos gaúchos. Destaca-se por investimentos, tecnologia e inovação, como o cultivo de Gewurztraminer, Sauvignon Blanc e castas portuguesas, além da Tannat, amplamente cultivada no vizinho Uruguai.

SERRA DO SUDESTE – Mescla elementos do Pampa Gaúcho, como mata nativa e fauna, paisagem de serra com rochedos e formatos únicos. Abrange quatro municípios: Pinheiro Machado, Piratini, Pedras Altas e Encruzilhada do Sul. Em Encruzilhada, dentre descobertas na década de 1990, a família Angheben estuda o terroir da região, chegando a dados edafoclimáticos ideais para uvas finas. Surgem investimentos em vinhedos de marcas como Marson, Lidio Carraro, Casa Valduga e considerável área da Chandon. Focados em uvas viníferas, as mesmas são colhidas e vinificadas na Serra Gaúcha, pois lá não há vinícolas estruturadas. A altitude média é de 400 a 450 m. O mesmo movimento já vinha ocorrendo por Pinheiro Machado, onde há diversos vinhedos em produção. A região tem notoriedade na crítica internacional. Oz Clarke, jornalista inglês especializado em vinhos, classifica-a como a mais promissora região de vinhos no Brasil.

BARRA DO RIBEIRO – Em 1996, Gilberto Schwartsmann, médico oncologista, desenvolve sua paixão pelo vinho por influência de um paciente conhecedor do assunto. Na condição de ser apenas apreciador, passa a pesquisar e investe em sua propriedade em Barra do Ribeiro em um projeto único. A uva símbolo é Montepulciano. Com consultorias de enólogos, implanta a Laurentia, com vinícola e vinhedos próprios. Está perto da estrada principal de acesso a Barra do Ribeiro, com área de eventos e hospedagem para pequenos grupos. O entorno da vinícola contrasta planícies de arroz com vinhedos. É inspirada nas vilas da Toscana.

ALTO URUGUAI – Localizada próximo ao Rio Uruguai e a Frederico Westphalen, na fronteira com o estado de Santa Catarina, esta nova região tem interessantes projetos na área do vinho. A base da colonização é italiana e alemã; a economia é baseada não só em agronegócios, mas também na exploração de pedras e minerais. O clima possibilita que a safra aconteça mais cedo que em outras regiões. São 12 projetos integrados que formam a Rede de Vinícolas do Alto Uruguai, nas cidades de Sarandi, Barra Funda, Rondinha, Três Palmeiras, Ametista do Sul, Alpestre e Planalto. Os destaques ficam com a alta qualidade e o reconhecimento que a marca Antonio Dias (Três Palmeiras) tem atingido em todo o Brasil e a bela ideia da Vinícola Ametista. Construída junto a uma antiga mina de ametistas, adaptou o túnel de onde antes eram extraídas as pedras preciosas como cave de envelhecimento de vinhos.

ILHA DOS MARINHEIROS – Uma das zonas mais antigas de cultivo no Estado, riquíssima em tradições portuguesas. Antes ocupada por indígenas, teve colonização açoriana em meados de 1700. Estes, por sua vez, trouxeram inúmeras contribuições culturais, dentre elas o cultivo da videira. Pertence à cidade de Rio Grande, potência econômica gaúcha, com um dos portos mais importantes do Brasil. Os vinhos elaborados em ilhas portuguesas, como Madeira ou Açores, sempre eram submetidos a viagens de barco para sua comercialização. Assim, técnicas para conservação foram surgindo ao longo do tempo: ao modelo do Porto, adicionar álcool ou manter a graduação de açúcar alta foram tornando- -se o estilo. Na Ilha dos Marinheiros, a maior ilha do Estado, ainda há pequenos produtores que mantêm a tradição de elaborar Jeropiga ou Jurupinga. Trata-se de mosto de uvas com adição de álcool.

* Enóloga, coordenadora do Núcleo Cultural do Vinho da Fundação Ecarta | Este artigo tem trechos extraídos do livro Diagnóstico do Enoturismo Brasileiro, da autora.

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