Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 175 | Ano 18 | Jul 2013
ECARTA
ARTES VISUAIS

Por Luísa Kiefer*
Foto: divulgação

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Obra de Michel Zózimo

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Devo começar esse texto fazendo uma declaração: sou uma jovem jornalista e minha aventura no campo das artes também é jovem, acabou de começar. Tenho a mesma idade de quem vou falar ou, por vezes, até menos. Mas por uma vontade de pensar sobre o hoje, o aqui e o agora, resolvi me dedicar a pesquisar sobre a figura do jovem artista.

É um tema que me instiga e, ao mesmo tempo, intriga. É quase como se a minha necessidade de descobrir o que é, o que representa, afinal, o jovem artista para o sistema das artes, fosse uma incógnita e a única certeza que estou adquirindo com o tempo é a de que sim, faz sentido me debruçar sobre este tema e pensar por que, afinal, falamos tanto em jovem artista.

Ao longo do meu mestrado, quando comecei a pesquisar este tema, fui me deparando com eventos, editais, prêmios, plataformas digitais e alguns textos teóricos voltados apenas para ou sobre jovens artistas. Entretanto, estavam quase sempre interessados na figura do jovem como novidade. Algo como encontrar o último grito, lançar o mais novo entre os novos, descobrir os nomes que serão a nova sensação de um mercado moda. Esses meios, de certa forma, me deram confiança de que fazia sentido pensar sobre essa figura, mesmo que eu também fosse uma delas, mesmo que isso significasse tentar entender uma história viva e por isso mais difícil de analisar.

Quando falo em figura do jovem artista imagino ele como persona, como uma representação, como uma peça imbricada em um complexo e viciado sistema das artes, cheio de agentes e disputas por poder. Parece-me que, hoje em dia, não basta ser um artista, tem que se ser um jovem artista. Aliás, há um discurso predominante de que sejamos todos jovens, em tudo, hoje e sempre, daqui para frente. Nesse sentido, o excesso do uso da palavra jovem artista, ou a importância que se dá para ela, parece, para mim, desviar do assunto principal quando falamos de arte: a produção, a poética, o lugar de onde e para onde falam esses artistas.

A meu ver, a produção de um jovem artista tem uma série de obstáculos pela frente. Não apenas aqueles de ordem mercadológica, econômica, mas em termos de maturação do trabalho e da sua produção. Uma trajetória se constrói apenas com o tempo e é justamente o tempo que esta exacerbação parece cortar fora. Abreviam-se etapas de uma carreira ou, melhor, criam-se carreiras meteóricas.

Em meio a este cenário complexo, me parece que temos, ainda, duas maneiras de olhar para este jovem artista: a primeira delas seria entender a sua figura como mito, como uma personificação do novo – um novo que é uma exigência deste mercado ávido pela novidade, pelo ainda não lançado e pelo que pode render visibilidade, deixando de lado uma reflexão mais crítica sobre suas poéticas e trajetórias. Ou, então, podemos olhar para o jovem como alguém que também é capaz de nos contar, através da sua produção e das suas escolhas, um pouco mais sobre o hoje. Que possa nos ajudar a tentar compreender, a partir das suas poéticas, alguma coisa sobre o aqui e o agora, não só na arte, mas em nossas sociedades.

A exposição Campo Magnético tenta dar conta deste segundo olhar. No momento em que proponho olhar para três artistas que trabalham com uma mesma mídia, mas de maneiras diferentes, e abordam um mesmo universo temático mas, novamente, por vieses distintos, proponho um olhar para uma jovem produção, procurando apreender dela algo que nos diga mais sobre o tempo presente. Que a gente possa encontrar atrações e também repulsões, identificar características intrínsecas à geração e ao tempo atual que talvez estejam presentes em suas poéticas de formas subjetivas.

A ideia é que os trabalhos de Marina Camargo, Michel Zózimo e Romy Pocztaruk possam conviver no espaço expositivo, deixando ressoar as suas peculiaridades e particularidades. Que o público possa encontrar ressonâncias e dissonâncias, mas que ele fique sempre livre para observar, contemplar e perceber. Parece-me que esta é uma boa maneira de seguir falando em jovem artista.

* Jornalista e mestranda em História Teoria e Crítica de Arte pela Ufrgs.

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