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Nº 176 | Ano 18 | Ago 2013
FRAGA

Fraga

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Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Por um lado, o gigante acordou; por outro, continua empacado.

Tem tudo a ver com os gabinetes, aquelas saletas onde a urgência se torna obsoleta.

Sim, falamos dos gabinetes oficiais, aqueles mezzo governamentais, mezzo ornamentais, por todos os espaços nacionais: gabinetes federais, estaduais, municipais, capitais, regionais e outros que tais. Não fossem tantos ainda seriam demais.

Os gabinetes são tentáculos ministeriais, enroscados em secretarias educacionais, sociais e culturais, industriais e comerciais, instalados e lotados também nas estatais. Nunca saem de moda, são sempre in: incontáveis, incontornáveis, incontestáveis e, o que é bem pior, incontroláveis.

A função básica dos gabinetes: travar o Brasil. E se quisessem destravar o país, podem apostar – seriam criados novos e monstruosos gabinetes.

Fora dos gabinetes, o impossível acontece. Dentro deles, nem o possível ocorre.

Estranhos, os gabinetes. Neles não há lesmas nem caracóis, a lerdeza reinante chega a ser irritante para esses moluscos. Sua irritação é tão intensa que em vez de subir pelas paredes saem porta fora. É que caracóis e lesmas têm seu ritmo, os gabinetes nem isso.

gabinetes nem isso. Indestrutíveis, os gabinetes são como bunkers e casamatas da burocracia. É onde o planejamento começa e jamais termina. O adiamento move os ponteiros. Os prazos são prorrogados até o decurso fatal. Por isso as obras não andam, desandam.

Por isso, mais isso:

Antes de entupir as vias, os congestionamentos são estrategicamente concebidos nos gabinetes. Mãos e contramãos são embaralhadas, sinais são complicados, plano-diretor é feito labirinto, viadutos viram estacionamentos. Todo um expediente diário para asfixiar o fluxo viário.

Para encher salas de espera de desespero, à espera da saúde, confiemos nos gabinetes. Agora hospitais públicos contam com mais cargos de confiança que funções clínicas. Atopetados de pacientes, a impaciência hospitalar nunca chega aos gabinetes, tão autoimunes às distorções que projetam.

Graças aos gabinetes, a infra e a estrutura se divorciaram, mal se falam.

E rale-se o fundamental: a prioridade da gestão é desviar os orçamentos para o monumental.

O negócio dos gabinetes é atrapalhar negócios, a ocupação principal é prover o caos pela estagnação, enfim, carimbar a inércia administrativa em todos os setores.

Nos gabinetes públicos as decisões hibernam, enquanto as indecisões procriam embaraços, obstáculos, ressalvas, indeferimentos, negativas. Atrasar, verbo tramitativo indireto.

O gigante acordou. E os gabinetes bocejam.

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