Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 176 | Ano 18 | Ago 2013
PALAVRA DE PROFESSOR

Por Fábio Guadagnin*

É inegável que o Enem vem apresentando equívocos graves, mas não se pode ignorar a proposta que ele nos apresenta enquanto educação para além dos “conteúdos”. Nunca foi intenção do Enem “saber se os conteúdos ensinados estavam sendo aprendidos”, como afirmado aqui na edição de abril do Extra Classe. E a postura de preocupação diante da necessidade de preparação específica para o Enem é alarmante. Peca gravemente a escola que exige isso de seus professores, talvez com medo de sua colocação no nefasto ranking, e peca mais ainda o professor que acredita que deve “preparar o aluno para a prova”. É exatamente esta postura que faz com que o Enem perca todo seu sentido.

postura que faz com que o Enem perca todo seu sentido. Entender Enem como avaliação de apreensão de conteúdos é abominável, assim como condenar uma mudança sem compreendê-la. A proposta é avaliar que cidadão é esse que estamos entregando ao mundo. Quem é esse adolescente que enfrentará o mercado de trabalho e o ensino superior? Terá ele as habilidades necessárias para enfrentar os desafios que surgirão?

Em momento algum da vida de nossos estudantes surgirá um problema que será solucionado com um lampejo de sua memória sobrecarregada: “tenho um problema… vou resolver porque os gases nobres estão agrupados nesta parte da tabela periódica!”. Sejamos francos, isso nunca vai acontecer. E tampouco vai acontecer com as capitais dos estados, com a maioria das fórmulas matemáticas e com as obras clássicas da Literatura. Deveríamos estar preparando adolescentes para enfrentar o mundo, e não uma prova. É isso que o Enem está tentando nos dizer. Para resolver problemas que ainda nem existem, soluções prontas, que foram pensadas no passado, não são suficientes. Precisamos dotar nossos estudantes das ferramentas necessárias para que identifiquem os problemas de seu mundo e pensem sobre eles, encontrando soluções para questões que só existem ali, no contexto onde vivem.

É preciso entender que o Enem valoriza muito mais a compreensão textual do que a leitura de obras clássicas porque a encara como algo dinâmico, e não específico. Um adolescente não precisa saber interpretar uma obra específica, precisa saber interpretar todo e qualquer texto que lhe surgir aos olhos. E, para isso, precisa da habilidade de leitura e compreensão textual, que é dever de todas as disciplinas. Ou alguém terminou o ensino médio e não teve de ler e compreender textos em Geografia, Biologia e Filosofia? Isso porque compreensão não é conteúdo do Português, mas habilidade do ensino básico.

O que se propõe é uma educação preocupada em resolver os problemas da realidade, para que o estudante tenha a competência de mudar seu mundo para melhor, e para que ele não seja forçado a aceitar um mundo que não lhe pertence, que o impede de ver para além dos muros da escola. A escola que nega esta proposta de educação aberta, interventora na realidade (material ou subjetiva), contextualizada e contextualizadora, se preocupa que o estudante saiba quem escreveu Vidas Secas, mas se esquece que ele mesmo, estudante, talvez não tenha água potável para beber.

* Professor de Geografia e Ciências Humanas do Pastor Dohms.

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