Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 177 | Ano 18 | Set 2013
PALAVRA DE PROFESSOR

Por Marcelo Frizon*

Nas duas edições anteriores, os professores Carlos Pinent e Fábio Guadagnin responderam meu artigo de maio, em que procurei demonstrar que o Enem não pode ser levado a sério por causa dos escândalos nos últimos quatro anos. Na visão do primeiro, o Enem é bom porque insere o Brasil numa realidade internacional de avaliação do ensino médio e contribui para o acesso à universidade. Prova disso, segundo o professor, seria o crescente número de universidades federais que estão aderindo ao Enem como critério de seleção. Diferente do que diz o professor, no entanto, as instituições de ensino superior, sim, sofrem pressão para adotar o Enem. Se não sofressem, o presidente do Inep não precisaria ter vindo pessoalmente, em junho, negociar a adesão da Ufrgs. Se o Enem é tão bom, por que Unicamp e USP não o adotam?

Ainda na visão do professor, o Enem é uma prova que democratiza o acesso às universidades, o que não corresponde à realidade dos fatos. Segundo reportagem de O Globo de 25 de maio deste ano (disponível em http://tinyurl.com/sisu2013), das 1.731 matrículas disponíveis em cursos de Medicina em 2013 através do Sisu, 46,85% foram preenchidas por estudantes de outros estados. O Acre, por exemplo, recebeu 95% de calouros de outros estados para preencher suas vagas em Medicina. O Rio Grande do Sul, 58%. São Paulo é o estado que mais exporta alunos e é um dos que menos recebe. Isso ocorre por motivos variados: SP é o maior estado do país e também o mais rico. Para se mudar para outro estado, o estudante precisa ter dinheiro. Conclusão: o Sisu, através do Enem, está servindo para democratizar o acesso às universidades… para os estudantes paulistas. Como afirma Pinent, países como os EUA têm sistemas semelhantes, mas o Brasil não está preparado da mesma forma para uma prova assim, porque não tem um “banco de questões capaz de permitir vários ‘enens’ por ano” (e isso já acarretou um escândalo envolvendo uma escola cearense).

É claro que é interessante a ideia de fazer uma única prova para concorrer a mais de 130 mil vagas ao invés de várias provas para concorrer a menos de 5% desse número. Mas a verdade é que as universidades federais foram criadas para suprir as necessidades das regiões em que estão baseadas. Seria democrático se o Sisu reservasse um bom número de vagas para moradores do estado da universidade.

Com relação às questões do professor Guadagnin, sim, o Enem está certo ao se propor como uma prova que exige mais raciocínio do que decorebas, mas ignorar conteúdos supostamente desnecessários não contribuirá para que o Brasil tenha melhores índices de educação e nem para que nossos estudantes “tenham a competência de mudar seu mundo para melhor”. Ignorar a existência da tabela periódica ou que alguns autores da literatura realizaram obra superior e revolucionaram a língua não vai preparar melhor nossos estudantes para o mundo. Não é o Enem que deve ser uma prova acessível, porque assim os estudantes têm iguais condições de disputar uma vaga, já que nem todos têm o ensino de qualidade que mereciam. São as escolas que precisam melhorar seu ensino.

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura, La Salle Dores e Santo Antônio.

 

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