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Nº 178 | Ano 18 | Out 2013
FRAGA

Por Fraga

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Comprovado: o excesso de senhas torna os neurônios inacessíveis.

A primeira senha conhecida era vermelha, reluzente, atrativa, e pendia de uma macieira. Era forte, com 13 letras: frutoproibido. Engenhosa e estranha aos usuários da região, a senha funcionaria às avessas; se usada, negaria acesso ao Éden. Com ela se acessaria o inferno do conhecimento.

Onde até hoje estamos.

Outras senhas lendárias surgiram, e Abre-te, Sésamo é apenas uma das mais famosas. Já a mais temível é Sim, quando dita por duas pessoas diante de um altar. O acesso inicial pode levar a milhares de acessos: de raiva, de loucura, de solidão a dois, de escambau.

Ei, peraí, isso aqui não é a história da humanidade!

Puizé, as senhas são seres digitais com vida própria. Vivem em dois mundos, no real e no cyber-espaço. Lá e cá, acompanham o emocionante cotidiano de quem depende de senhas. E elas também são dependentes dos usuários.

O principal terror de uma senha é ser esquecida. Quando estão num dos incontáveis limbos cerebrais deste planeta, sofrem, têm crise de abstinência de bites, e suspeitam que não são imortais. Tadinhas.

Aí se reúnem em sessões terapêuticas, onde contam seus vícios de consumo, dos estranhos lugares que controlam a entrada, do seu estressante dia a dia entre sinapses. Nessas situações, as senhas se exercitam: trocam os algarismos de lugar, se misturam a outras, tudo pra manter a decoreba da sua eterna posição alfanumérica.

Por isso as senhas tentam permanecer esguias e miúdas, embora assim sejam sem força. Já as maiores, compridas, padecem da síndrome de pânico: e se forem confudidas com outras senhas, suas vizinhas de carteiras e cartões?

Daí as senhas enlouquecidas, daquelas que não podem nem ouvir falar em urgências, filas e horários de fechamento de bancos, caixas, guichês e maquininhas com sistema fora do ar. Algumas senhas têm até lapsos de memória antes mesmo que o usuário pense nelas: é quando o usuário precisa dela e a busca e não a reconhece.

O usuário se enerva e o fluxo nervoso a apanha e a desconjunta. Nessa hora, a senha se esparrama pelo teclado mais próximo, em ordem não sabida, e quem diz que será localizada? O pior é quando é novinha, recém-trocada por uma antiga, uma que sabia de cor e salteado o roteiro dos dedos do usuário. As novas senhas têm vertigem, vão até a ponta da língua, pronta pra saltar pro teclado. Inútil. A crise de identidade de uma senha é pior que a de gente.

E a superpopulação de senhas? Imagine: 7 bilhões de humanos, cada um com umas 4 ou 5, às vezes mais, são quase 50 bilhões de senhas no universo. Fora os universos paralelos, que lá também deve ter senhas.

Por isso as senhas são odiadas: elas têm a existência muito parecida com a de seus donos.

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