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Nº 181 | Ano 19 | Mar 2014
WEISSHEIMER
MARCO WEISSHEIMER

Por Marco Weissheimer

A Copa do Mundo e as Eleições de 2014

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Quando foi anunciado que a Copa do Mundo de Futebol de 2014 seria realizada no Brasil, pouca gente, muito pouca mesmo, previu que ela se tornaria a dor de cabeça que acabou se tornando. Mais do que um evento futebolístico (um dos maiores do planeta, aliás), a Copa se transformou em umingrediente decisivo no tabuleiro de 2014, ano em que o Brasil vai às urnas para eleger seus novos governos em níveis federal e estadual, e seus respectivos parlamentos. Os movimentos políticos em torno da Copa estão todos subordinados, goste-se ou não, à eleição presidencial. Não é uma eleição presidencial qualquer. Ela define o futuro do maior país da América Latina e, de modo indireto, de todo o continente. Com o passar dos meses, essa agenda vai se impor ao debate político do país, exigindo escolhas e definição de posicionamentos.

Os grupos e movimentos que manifestam disposição em inviabilizar a realização da Copa no Brasil representam neste início de ano a grande esperança da oposição ao governo federal para derrubar a popularidade da presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição. A única coisa que foi capaz de derrubar a popularidade de Dilma foram os protestos de junho de 2013. Sem uma agenda política, social e econômica para o país, a oposição capitaneada pelo PSDB acompanha o desenrolar dos acontecimentos, apostando no quanto pior, melhor, e contribuindo para isso com a truculência policial onde governa, como ocorre atualmente em São Paulo. Essa é a receita para alimentar um clima de conturbação social nas ruas capaz de transformar a Copa num pesadelo para o atual governo.

A bala de prata da oposição
Objetivamente, o “não vai ter Copa” virou a bala de prata da oposição. Os grupos e movimentos que trabalham com esse objetivo tendem a se transformar rapidamente em linha auxiliar do conservadorismo brasileiro que quer acabar com o que chamam de “farra fiscal” provocada pelo conjunto de políticas públicas implementadas pelo Estado brasileiro, hoje. É difícil prever qual será a evolução dos protestos de rua nos próximos meses. Os primeiros sinais de 2014 indicaram uma diminuição do tamanho das manifestações e um aumento da violência, que culminou com a morte do cinegrafista da Rede Bandeirantes, Santiago Ilídio Andrade, atingido por um rojão disparado por um jovem manifestante no Rio de Janeiro.

A morte estúpida de Santiago pode colocar os movimentos black blocs e assemelhados na defensiva. O que já é possível perceber é uma crescente rejeição na sociedade ao uso da violência como tática de mobilização. As justas reivindicações de diversas categorias e movimentos sociais correm o risco de ser contaminadas por uma violência cega e estúpida que elege qualquer coisa que esteja a sua frente como alvo.

Diálogos da Copa: a iniciativa do governo gaúcho
Para tentar neutralizar esse clima de acirramento e violência, o governo do Rio Grande do Sul decidiu realizar, entre os meses de março e maio, por meio do Gabinete Digital, uma série de audiências e escutas sobre a Copa do Mundo de Futebol. Os encontros, que serão transmitidos ao vivo pela internet, reunirão representantes de movimentos e organizações críticas à Copa e também setores da sociedade que defendem a realização do evento em um clima de paz e diálogo. A ideia é abrir um espaço de interação com esses grupos e setores, que terão a oportunidade de dialogar entre si e também com o governador Tarso Genro em busca de soluções que minimizem tensões e acolham reivindicações sociais fruto de impactos da organização da Copa.

A iniciativa dos Diálogos da Copa quer ajudar a construir um espaço de diálogo e não violência em torno do tema da Copa. Segundo o secretário-geral do governo gaúcho, Vinicius Wu, o poder público reconhece que está diante de muitos questionamentos legítimos (como aqueles envolvendo a remoção de moradores em função de obras da Copa, por exemplo) que devem ser ouvidos e encontrem acolhimento por parte do Estado. O Executivo gaúcho rejeita a ideia de que a resolução desse tipo de conflito social deva ser objeto da atuação da polícia. Alguns estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, vêm adotando essa fórmula e ela não tem dado certo, assinala Wu.

O governo também quer discutir com a sociedade alguns procedimentos originários da Lei Geral da Copa, definida pela Fifa, que incidem sobre a organização urbana e a vida das pessoas durante o evento (como, por exemplo, a proibição de comércio que não seja o dos anunciantes da Copa no entorno dos estádios onde ocorrerão os jogos). Além disso, pretende adotar uma postura transparente em relação aos gastos da Copa, buscando separar o que é desinformação e mistificação e o que é problema real relacionado a este tema.

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