Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 182 | Ano 19 | Abr 2014
PALAVRA DE PROFESSOR

Por Osvaldo Biz*

O escritor uruguaio, Eduardo Galeano, escreve que a utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Por mais que eu caminhe jamais alcançarei. Para que então serve a utopia? Serve para isso. Para que eu não deixe de caminhar. O mesmo pode ser dito da Democracia, ela não se restringe à participação a cada dois anos, por ocasião das eleições.

O fim do regime militar no Brasil (1964-1985) propiciou ao povo a possibilidade de escolher seus governantes e legisladores. Mas a tarefa
não termina com o voto individual na urna. É o começo de um trabalho em prol do aperfeiçoamento da democracia. Uma etapa que é feita em conjunto com outras pessoas. Donde se conclui que é preciso associar-se, organizar-se para ter força e condições para mudar os rumos da sociedade.

Fica difícil aceitar que os jovens de hoje, pós-ditadura, ainda consideram a atividade política como safada e que todo político é pilantra. É urgente que se entenda a política como virtude do ser humano. Aristóteles classificou o homem como um animal político, por natureza, que deve viver em sociedade e aquele que deixa de participar de uma cidade, é um servil, um bruto ou uma divindade. Havia limitações em seu tempo. Mas, hoje, vivenciamos uma era com muitas possibilidades de atuação. Trata-se de uma conscientização não sobre o nada, mas sobre a realidade política e social, que necessita de um trabalho ao longo dos anos.

Conviver com esta ideia é o mais político dos atos. No filme Pequena Miss
Sunshine, o avô anima a neta que vai participar de um concurso de beleza (sem muita chance) com esta frase: “perdedor é aquele que teve tanto medo de vencer que nem chegou a tentar”. Viver em sociedade significa também ter muitas obrigações. Sem cumprir certos deveres, como reclamar direitos? Depende, então, da formação, que é algo intrinsecamente político. É preciso conscientizar-se que o cidadão não é somente vítima do sistema, mas causador de muitas desordens pelo tipo de político que escolhe nas eleições. Não estaremos nós vivendo como deficientes cívicos?

Cabe bem a justa cólera, frente aos desmandos que constatamos. Reclamar, organizar-se, exigir mudanças significa ser rotulado, por muitos,  de baderneiro, de violador das leis, as quais foram feitas pelo mesmo grupo detentor de privilégios. A democracia nos ajuda a viver como sujeitos sociais e políticos válidos. Parar de perguntar, é parar de aprender. A emoção, nesses casos, vale mais que a inteligência. Chega de sermos prisioneiros de uma teoria que afirma que não adianta lutar.

Qualquer mudança para melhorar a democracia em razão do futuro da nossa sociedade necessita que primeiro aconteça na cabeça das pessoas. Depois, é só libertar a nossa fala. Não há alternativa senão caminhar e predispor-se para uma ação política, uma vez que mudar de governo não significa mudar o poder. Para José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, este é o drama da democracia.

* Jornalista. Doutor em Comunicação Social.

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