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Nº 185 | Ano 19 | Jul 2014
FRAGA

Por Fraga

Casimiro de Abreu 2014

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Oh! que amnésia que tenho do outrora da minha vida a velhice perdida aparelhos não prolongam mais.  Que vácuo, que limbo, naquelas tardes de terapia, o assombro das enfermeiras debaixo dos meus ais.
Como repete ideias fixas essa quase inexistência Respira a alma por tubos, falha o olfato pra flor.
O mar, concha muda na mão; o céu, cinzenta ausência, o mundo, vago vestígio; a vida, um único torpor.
Que tonteiras, que rol de sobrevida, que noites insones, aquela eterna letargia, aquele intenso resfolegar. Lençol bordado de manchas, colônia de coliformes, sondas furando artérias, tomografias de par em par.
Oh, sentidos em dormência, só se sente as escaras.
Um açucareiro nas veias, cloreto de sódio – a ruína.
Em vez de asilo tranquilo, essa CTI às escuras nenhuma serenidade, senilidade somente – e angina.
Das biópsias aos diagnósticos, prognósticos e análises desfibrilador ao peito, pés gelados, braços picados.
Ressonâncias de um lado, por outro hemodiálises, aneurisma ou avc, e a sonolência do coma induzido.
Nessas UTIs monitoradas não se colhem pitangas nem há remotas lembranças da ex vida saudável.
No teto, bailam alucinações com mares e sangas: o paciente terminal agora é paciente interminável.
Oh! Que amnésia que tenho do outrora de minha vida…

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