Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 187 | Ano 19 | Set 2014
MARCOS ROLIM

Por Marcos Rolim*

Em 22 de julho de 2013, participei de um evento no Palácio Piratini, Vozes das ruas, promovido pelo governo do estado, para debater os significados das manifestações que haviam sacudido o país. Os ex­tratos que seguem são partes de minha intervenção naquele dia. Os reproduzo aqui, porque os imagino úteis para pensar o momento político pré-eleitoral, a emergência do novo e a total incapacidade da política tradi­cional de compreendê-lo.

O COMEÇO – “Todos os começos possuem um elemento de total arbitrariedade”, dizia Han­nah Arendt. Esta condição de dar início a algo no mun­do, de providenciar que algo até então inexistente surja, é equiparado por ela ao fenô­meno da natalidade; afinal, “Todos nós viemos de lugar nenhum e iremos desapare­cer para o nada”. A tentação que temos, entretanto, é a de sempre situar os fenômenos que emergem como desdo­bramentos naturais e neces­sários de outros fenômenos já catalogados. O fato é que eles não são este desdobra­mento. Há muito de casual em todo início, assim como muito de ilógico e espantoso. E ainda bem que as coisas são assim. Se vivêssemos em um mundo de pura necessi­dade, onde tudo o que nasce fosse o resultado previsível de uma dinâmica causal, não haveria escolhas possíveis.

Sobre a emergência do novo

Ilustração: Pedro Alice

“Há muito de casual em todo início, assim como muito de
ilógico e espantoso. E ainda bem que as coisas são assim. Se
vivêssemos em um mundo de pura necessidade, onde tudo o
que nasce fosse o resultado previsível de uma dinâmica causal,
não haveria escolhas possíveis”

Ilustração: Pedro Alice

O DESCOLAMEN­TO – Vivemos uma expe­riência de descolamento de parte expressiva da cidadania diante das instituições tradi­cionais da política (os parti­dos); da religião (as Igrejas) e da indústria cultural (os veículos de comunicação so­cial). Diante disso, pergunto: em termos históricos, este deslocamento configura um fenômeno progressivo ou regressivo? Descon­siderando o que é secundário ou mesmo irrelevante, as multidões que saíram às ruas aumentaram as possibilidades de mudanças virtuosas ou agregaram ameaças? Para os que apreciam metáforas óbvias: qual o seu gigante pre­ferido, o que acordou ou o que dormia? Desde uma posição conservadora, parece claro que a preferência recairá sempre sobre um gigante que hiberne, se possível em todas as estações.

UM MUNDO GRÁVIDO DE OUTRO – Os deuses costumam apreciar as ironias. O que parece ser ainda mais verdadeiro no Olimpo quando o assunto é o Brasil. Entre nós, os movimentos jovens de protes­to – movimentos de borda e de ativismo autoral (para empregar dois dos conceitos utilizados por Marina Silva desde 2010), sem lideranças e hierar­quias, organizados horizontalmente a partir das redes sociais e com reivin­dicações difusas, passaram a ser vistos com desconfiança, temor e contida hostilidade por importantes setores da esquerda tradicional. Já a esquerda ortodoxa, que esteve desde o início presente nas mobilizações, não percebeu que as aspirações genéricas por mudanças envolviam também a recusa às formas tradicionais de mani­festações políticas controladas e dirigidas por partidos. O re­sultado foi e segue sendo o de um estranhamento notável. Um estranhamento que não é apenas de ideologias, lingua­gens e valores, mas de mundos mesmo. Nosso mundo que está grávido de outro não reconhe­ce o que está gestando nem de­seja o parto. Penso que o novo mundo se rebela, porque não se conforma com a ausência de caminhos, com o deserto de ideias e, sobretudo, com o ci­nismo.

UM MODELO EXAU­RIDO – Seria preciso que a política fosse o espaço para as reformas que moldassem as instituições de acordo com as tradições e os valores mais generosos que a humanidade produziu, mas e se as institui­ções políticas tiverem se tor­nado, precisamente, o centro desta impossibilidade? Se che­gássemos à conclusão de que o modelo político que temos fosse o maior impedimento para qualquer processo de re­forma? Se descobríssemos que este modelo forjou lideranças que não lideram, gestores que não administram e represen­tantes que não representam? Que a grande maioria dos que ocupam funções públicas está orientada por objetivos de Poder, sempre to­mados como prioritários diante de qualquer ideia ou mesmo de qualquer princípio?

O modelo político que temos diz respeito a um mundo que se tornou deserto. Não apenas porque está vazio de perspectivas utópicas, mas porque o vazio produzido pelo fim das utopias só se tornou vazio pela ausência de valores. Essa é a maior e a mais importante mensagem que brotou nas ruas do país, em meio ao gás lacrimogêneo e às balas de borracha. E essa é, precisamente, a única mensagem que não será ouvida pelos donos do Poder.

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