Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 189 | Ano 19 | NOV 2014
MARCOS ROLIM
COLUNISTA

Uma cidade é um corpo vivo, um ser que respira, que se alarga, que se contorce, que mergulha e regurgita. Cidades vivem e algumas delas também morrem. Vão se esvaziando de gente, passam a ser habitadas pelo vento, viram fantasmas. Outras se tornam eternas. Nas grandes cidades, tudo o que vemos são pontos em uma curva milenar. Os que não sabem disso imaginam as cidades como permanência, como extensão do mesmo. Ilusão. As cidades são uma luta renhida. A parte mais evidente da batalha é aquela que contrapõe espaços e destinações públicas a interesses e usos privados. Mas a luta travada no coração das cidades vai além e envolve também bens simbólicos como, por exemplo, a memória.

Há coisas em uma cidade que devem sobreviver e outras que devem perecer. Em cada cidade, há casos graves de dor e injustiça que importa registrar em monumentos para que em torno deles se faça o silêncio. Massacres, por exemplo, merecem a lembrança para que o horror não se naturalize, para que tenhamos consciência do incômodo das sombras; para que possamos apontar às crianças lugares graves já banhados pelo sangue e dizer que ali a humanidade se esqueceu de si mesma.

"Há casos graves de dor e injustiça que importa registrar em monumentos para que em torno deles se faça o silêncio. Massacres, por exemplo, merecem a lembrança para que o horror não se naturalize"

Ilustração: Pedro Alice

“Há casos graves de dor e injustiça que importa registrar em monumentos para que em torno deles se faça o silêncio. Massacres, por exemplo, merecem a lembrança para que o horror não se naturalize”

Ilustração: Pedro Alice

Por outro lado, há motivos de alegria e júbilo na história de cada cidade, momentos de orgulho, de conquistas, que pedem algo do mármore, do cobre e das pedras. Então, em torno de estátuas e símbolos, planejamos encontros e nos reinventamos. Vamos, assim, povoando as cidades de significados. A vida dos mortos nos espreita em cada calçada e não há esquina em uma cidade que não tenha sido forjada pelos sonhos dos que nos antecederam.

Observem Porto Alegre. No Centro Histórico, temos uma praça chamada Brigadeiro Sampaio, quase à beira do Guaíba. Com um projeto revitalizador, o espaço poderia se projetar belissimamente. Ao seu início, o local foi conhecido como “Largo da Forca”, porque ali pessoas eram executadas. Em 1865, surgiu a primeira praça, chamada Do Arsenal. Terminada a Guerra do Paraguai, o logradouro passou a ser a Praça da Harmonia, em homenagem ao acordo de paz na Bacia do Prata. O bonito nome, entretanto, não durou uma década. Martins de Lima, um vereador que havia plantado 94 árvores no local, foi o novo nome da praça. Então, o prefeito Alberto Bins resolveu homenagear a Revolução de 30 e a Praça virou Três de Outubro.

Finalmente, em 1965, já sob a ditadura, pareceu natural que a praça levasse o nome do patrono da Infantaria, o cearense Brigadeiro Antônio Sampaio, considerado um dos heróis nacionais. Ninguém se importou com o fato deste chefe militar, morto por ferimentos recebidos na Batalha do Tuiuiti, em 1866, ter participado da repressão aos farrapos, assim como às revoltas da Cabanagem (PA), Balaiada (MA) e Praieira (PE). Só para lembrar, em Belém, onde ocorreu uma revolta de ribeirinhos (cabanos), negros e índios, estima-se que cerca de 40% da população tenha sido exterminada. As tribos dos Murá e dos Mauê, por exemplo, desapareceram na chacina.

Recentemente, a Câmara de Vereadores de Porto Alegre aprovou projeto de lei do vereador Pedro Ruas (Psol) pelo qual a Avenida Castelo Branco foi renomeada Avenida da Legalidade e da Democracia. O que se viu pela imprensa foi a reação dos abobados da enchente. “Não têm o que fazer, os vereadores?” “Não se muda a história por decreto”; “Nova denominação poderá não pegar”, e por aí vai. Então não há problema em se homenagear ditadores? Em Belo Horizonte, já houve uma rua Dan Mitrione, nome do agente da CIA que ministrou aulas de tortura aos policiais brasileiros. Em 1983, uma senhora de coragem chamada Helena Greco (1916-2011) liderou o processo na Câmara de Vereadores que trocou o nome da rua para José Carlos da Mata Machado, ex-aluno de Direito da UFMG, assassinado pela ditadura aos 23 anos, sob tortura.

Agora, há um projeto tramitando por lá para que o nome de dona Helena seja dado a um dos principais viadutos da cidade, o viaduto Castelo Branco. Assim são as coisas porque não há história naquilo que ocorreu, mas nos sentidos que oferecemos àquilo que ocorreu. Enquanto isso, no coração de cada cidade, o que há de mais generoso no mundo torce por dona Helena.

* Jornalista, sociólogo e professor do IPA.

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