Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 191 | Ano 20 | Mar 2015
PALAVRA DE PROFESSOR

Janes Teresinha Fraga Siqueira*

A realidade da formação de nossos alunos é diversa do ideal da educação humanista que os cursos de Ciências Sociais e Pedagogia sempre prezaram. Cumprir o papel de mediador, problematizar e acompanhar o aluno no trabalho de conhecer é tarefa do professor, logo o estudo e o trabalho de pensar são essenciais à profissão. O discurso oficial defende a educação como prioridade para uma sociedade melhor; no entanto, é sabido que, em muitos casos, o sacrifício dos estudantes para conseguir terminar seus estudos não é pequeno. Os jovens deveriam ter mais tempo de dedicação à sua formação.

Para nós representa uma contradição que professores que devem tomar para si a tarefa de formar gerações e de educar crianças e jovens tenham condições de trabalho penosas e, além disso, formação de qualidade prejudicada. Mesmo os que já são professores de Escolas Municipais de

Educação Infantil (Emeis) ou do ensino fundamental sofrem para poder dedicar-se ao estudo. Se o trabalho é na área da Educação, um não deveria complementar o outro? Se o estudo é parte da formação, qual seria o fundamento do conflito? É possível criar sem tempo para descansar? O tempo de descoberta, de reflexão e construção do conhecimento não é trabalho?

A falta de tempo de nossos alunos é facilmente diagnosticada ao observarmos o horário de chegada em aula, o tempo que permanecem, o pedido de prorrogação para entrega de trabalhos, o número de faltas, as condições de saúde apontadas pelos atestados médicos e as queixas sobre gripes, dores de cabeça e tantos outros problemas. Os profissionais docentes, nossos alunos, não podem estar em dois espaços ao mesmo tempo. Ainda assim, devido à distância em que moram ou ao tempo dedicado ao trabalho – em geral ganhando mal –, obriga-os a estar em aula e, ainda, atender à sua orientação de estágio.

Essas constatações não significam que estamos criticando alunas e alunos, ou colegas orientadores. Contudo, surge daí uma questão: que formação é esta em que o tempo para pensar é escasso, limitado? Que formação é esta em que os estudantes não podem desfrutar dos espaços que a universidade oferece para que possam ler e estudar, trocar ideias? Os jovens procuram a universidade. O governo sinaliza com possibilidades de bolsas de estudo, mas há uma despolitização no mundo estudantil. Vivemos uma democracia despolitizada. Não há clareza sobre as contradições da realidade. Estão cansados, apáticos, mas dizem: “É assim, fazer o quê”?

*Doutora em Educação − Ufrgs. Profª. Adjunta da Unisc.
Pesquisadora da Linha de Pesquisa: Educação, Trabalho e
Emancipação – Mestrado Unisc. Participante do grupo de pesquisa:
Formação de professores para o Mercosul/Conesul com sede na Ufrgs.

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