Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 193 | Ano 20 | Mai 2015
MARCOS ROLIM
COLUNISTA

Um dos melhores jornais do Brasil é espanhol. Chama-se El País Brasil e está disponível na internet. Sobre ele, já se disse que é “neocolonialista” e que não precisamos de estrangeiros para nos contar o que sucede em Pindorama. Eis um bom ponto. Sim, precisamos de um olhar estrangeiro. Não que El País seja excepcional. Ele é apenas mais interessante, porque comprometido com os valores generosos da civilização ocidental   destacadamente a democracia e os direitos humanos – e porque é independente frente à protopolítica que doura as disputas de poder no Brasil. Estas vantagens equivalem a janelas abertas em um quarto mofado.

Manifesto pelas luzes

Arte: Pedro Alice

Arte: Pedro Alice

Não fosse isso, Eliane Brum escreve em El País, o que encerra a discussão. Pois bem, li no jornal espanhol um texto de Mario Vargas Llosa, O poder da blasfêmia, com comentários sobre o último livro de Ayaan Hirsi Ali, ainda não traduzido para o português, Heretic: Why Islam Needs a Reformation Now. Ayaan é extraordinária em sua capacidade intelectual e coragem. Sua autobiografia, Infiel: a história de uma mulher que desafiou o Islã (Cia das Letras, 512 pág.) é uma obra impactante sobre o mundo muçulmano e central para se compreender os equívocos de certas abordagens “multiculturalistas”. Vargas Llosa destaca a posição de Ayaan em favor de uma mudança radical do Islamismo, aos moldes do que significou a Reforma Protestante.

Para ela, há sim uma ligação importante entre o terror e a religião muçulmana, nexo que poderia ser desconstituído pela superação de cinco dogmas: 1) a crença de que o Corão expressa a imutável palavra de Deus e a infalibilidade de Maomé; 2) a prioridade que o Islã concede à vida depois da morte; 3) a convicção de que a sharia constitui um sistema legal que deve governar a sociedade; 4) a obrigação do muçulmano de exigir o justo e proibir o que considera errado; e 5) a ideia da jihad ou guerra santa.

A proposta insinua a necessidade de uma determinada racionalização em uma tradição que não experimentou movimento filosófico, político e cultural de cunho iluminista. Pensar sobre a complexidade deste projeto talvez nos ajude a situar nossas próprias necessidades. O Brasil, afinal, também é uma experiência vivida à margem da ilustração. Por outros caminhos, é claro, mas com a mesma maldição da inexistência de uma força política comprometida com o humanismo e com a razão. Temos um poder público como regra ineficiente, burocratizado em excesso, que reproduz, interna e externamente, desigualdades e injustiças e, também, órgãos de Estado, encarregados de conter a violência e o crime, que não têm sido capazes de oferecer respostas efetivas e, mais grave, se transformaram em parte das perguntas a fazer. Por toda parte há espertinhos e corruptos, assim como a carência de vocação pública (fenômenos certamente correlacionados), tanto quanto variadas inclinações autoritárias, preconceituosas e intolerantes disseminadas entre a população e em todo o espectro político ideológico. Para piorar, após a desmoralização da esquerda, se fortalecem no Brasil as perspectivas  fundamentalistas, enquanto a extrema direita avança, pautando retrocessos históricos. Em todos eles (idade penal, controle de armas, terceirização, terras indígenas etc.) se pretende abolir conquistas civilizatórias e desconstituir tímidas políticas públicas de sentido inclusivo.

O Brasil dos proprietários incultos e intolerantes, dos preconceitos e dos latifúndios, da chibata e do “sabe com quem está falando?” se encontrou com o país do “bandido bom é bandido morto”, do tiro de fuzil em criança, da bala de borracha no olho, do pedágio para o tráfico e do senso moral dos que reivindicam uma arma na cintura e um militar no governo. O Brasil das posturas éticas, das garantias, do contraditório e da ampla defesa, da ponderação e do bom senso, do respeito e da curiosidade, da pesquisa, da ciência e da lógica, da igualdade e da República, da inteligência, da solidariedade e da arte, da democracia e do humanismo segue acuado.

Por isso, devemos desenvolver uma disputa estratégica pela formação de uma elite culta, democrática e republicana. Carecemos de dirigentes ilustrados. Os que nos apresentaram são impostores. A revolução que nos falta, em síntese, é a do Iluminismo. Sem ela, os que vencerem reproduzirão a miséria de espírito.

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