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Nº 196| Ano 20 | Ago 2015
EDITORIAL

Na contramão de uma tendência mundial, o Brasil segue utilizando venenos em larga escala na agricultura. Em apenas dois anos, cresceu em mais de 160% o volume de toneladas de agrotóxicos despejados nas lavouras, em que predominam substâncias vetadas em outros países, segundo estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Há quatro anos, cada brasileiro ingeria 5,1 litros de agrotóxicos presentes na forma residual nos alimentos. Hoje, esse consumo ultrapassa os 7 litros per capita.

Motivados pela falta de informações sobre os efeitos que essas substâncias podem provocar no organismo, especialmente pela combinação de pesticidas, fungicidas e estimuladores de crescimento, muitos consumidores estão migrando para a agricultura orgânica como fonte de alimentos. Os crescentes apelos por uma alimentação saudável e ambientalmente sustentável têm reflexos na agricultura, em que a transição para o cultivo de base ecológica mobiliza cada vez mais agricultores.

Levantamento do Ministério da Agricultura e Abastecimento (Mapa) revela que ao longo de 2014 o número de agricultores que se cadastraram para produzir orgânicos cresceu 51,7%, de 6.719 em janeiro de 2014 para 10.508 em janeiro deste ano e a projeção é de 30 mil agricultores de base ecológica até 2019.

De outro lado, a conscientização sobre os riscos que representam os agrotóxicos abre caminho para o consumo de orgânicos, em que as feiras ecológicas exercem um papel fundamental e já começam a proliferar os serviços de delivery de orgânicos. Aumento na produção e oferta em expansão, no entanto, não são suficientes para a massificação do consumo, que hoje não chega a 1% na comparação com a agricultura convencional. O caminho passa por uma mudança de cultura, como aponta Alan Tygel, da coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida.

A maior concentração populacional do país está nos centros urbanos e a mobilização dessa massa será fundamental para transformar o modelo de produção e consumo de alimentos. Mais do que optar pelos orgânicos, é importante compreender que esses alimentos vêm da agricultura familiar, “a única via possível para uma alimentação de qualidade, para quem produz, para quem consome e para o meio ambiente”.

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