Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 198 | Ano 20 | Out 2015
MARCOS ROLIM
COLUNISTA

Por Marcos Rolim

No livro A Casa & a Rua, há um capítulo onde Roberto DaMatta examina o romance Dona Flor e seus Dois Maridos, de Jorge Amado. A história ilustra as posições de DaMatta sobre nossas características sociológicas e sua recusa às explicações dualistas, do tipo “ou isso ou aquilo”. O que não funcionaria entre nós, porque somos levados a ficar com um tanto disso e outro daquilo o que resulta, por exemplo, na coabitação de éticas contraditórias em “casa” e na “rua”. Ele sustenta que há dois períodos na trajetória de Jorge Amado. O primeiro corresponde aos romances marcadamente políticos, centrados na denúncia da miséria e da exploração. Nesta fase, a obra do escritor baiano espelhava suas convicções militantes, o que reduziu a complexidade dos personagens e marcou suas histórias por uma “função” externa.

Mauro Mendonça, Sônia Braga e José Wilker em Dona Flor e Seus Dois Maridos, filme de Bruno Barreto, em 1976

Foto: Divulgação

Mauro Mendonça, Sônia Braga e José Wilker em Dona Flor
e Seus Dois Maridos, filme de Bruno Barreto, em 1976

Foto: Divulgação

DaMatta lembra, entretanto, do “segundo Amado”, que se afasta da doutrina para mergulhar na realidade social brasileira e criar personagens inesquecíveis como Gabriela, Dona Flor, Vadinho e tantos outros. Nesta fase, Jorge Amado não é mais o “senhor da história”, nem divide o mundo entre direita e esquerda. Agora ele nos conta histórias pelas quais é possível ver um país que tem todas aquelas dicotomias, mas não é igual a elas. É muito mais do que elas. Até aqui, tenho total acordo com suas observações.

Neste ensaio, DaMatta cita uma frase angustiada de Dona Flor, no momento em que deseja ter no seu leito dois homens: o novo marido, Dr. Teodoro, que lhe oferecia a segurança, o respeito e a rotina – e o espírito zombeteiro do falecido Vadinho, seu primeiro grande amor e um dos malandros mais bem construídos em nossa literatura: Ela então diz: – Por que cada criatura se divide em duas, por que é necessário sempre se dilacerar entre dois amores, por que o coração contém de uma vez só dois sentimentos controversos e opostos?

Após, em tom quase suplicante, pergunta a si mesma: – Por que optar se quero as duas coisas? Por que, me diga? DaMatta explora o texto como símbolo de uma ambiguidade tipicamente brasileira que deveria ser vista como positiva. Tenho minhas dúvidas.

O espaço da ambiguidade, sem dúvida característico, pode oferecer uma chave interpretativa para uma melhor compreensão do Brasil. Já a escolha por saudá-lo me parece arriscada. Em nossa tradição, talvez a ambiguidade revele mais propriamente um sinal de nossa incapacidade de enterrar o passado. As coisas entre nós se prolongam exatamente porque não rompemos com elas.

Quando mudamos, tratamos logo de preservar aspectos essenciais da realidade que se deveria ultrapassar. Por isso, o passado nunca é verdadeiramente passado. No RS, comemoramos uma epopeia republicana que nunca questionou a escravidão. Queremos políticos sinceros, mas quando alguém é sincero dizemos que ele não foi “político”. Abominamos a “roubalheira”, mas não a sonegação.

– Por que cada criatura se divide em duas, por que é necessário sempre se dilacerar entre dois amores, por que o coração contém de uma vez só dois sentimentos controversos e opostos? Após, em tom quase suplicante, pergunta a si mesma: – Por que optar se quero as duas coisas? Por que, me diga?

Nossos empresários falam em “menos Estado”, mas querem mais créditos subsidiados. Exigimos a lei, claro, mas quando for a nossa vez, preferimos o jeitinho. A direita brasileira se diz liberal, o que não a impediu de apoiar a ditadura e de calar diante da tortura, da perseguição e da censura. Nossos partidos de esquerda falam de seus ideais em termos generosos e reafirmando princípios ideológicos, mas, no dia a dia da política, se acertam facilmente com os demônios. Ficamos, assim, com a virtude em abstrato e com o vício no concreto.

Penso que a imagem do pântano simbolize com propriedade a herança da ambiguidade, na política e na teoria. Estivemos ali, enlameados e com pouca mobilidade, quando se transitou da Monarquia para a República via golpe de Estado; quando acabamos com a escravidão preocupados com o impacto da medida sobre a economia; quando permitimos que o Brasil fosse aprisionado por mais de 20 anos por um regime de assassinos; quando desconhecemos a necessidade de distribuir renda e de assegurar educação de qualidade; quando elegemos um playboy como presidente e, depois, quando assistimos boaquiabertos o sonho de uma geração que planejou o assalto aos céus terminar em uma delegacia de polícia.

O desafio, então, é o de sair do pântano com posições definidas sobre as questões relevantes e a partir de pressupostos éticos claros. Não se trata de tarefa simples. Pelo contrário, o movimento em direção à terra firme assinala enorme complexidade. Fazer da ambiguidade uma estratégia política, entretanto, só serve aos que precisam do pântano para que seus compromissos e valores não sejam identificados. Mais do que nunca, o Brasil deve desenvolver a capacidade de chamar as coisas pelos seus nomes. Assim, pelo menos, quando errarmos, será possível identificar o erro e saber suas razões.

* Jornalista, sociólogo e professor do IPA.
marcos@rolim.com.br | www.rolim.com.br

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