Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 200 | Ano 20 | Dez 2015
LUIS FERNANDO VERISSIMO
COLUNISTA

A França que não quis atacar o Iraque de Saddam Hussein junto com os americanos e os ingleses representou uma antítese dos truculentos anglo-saxões, na época. Era uma alternativa civilizada para o que os Estados Unidos, principalmente, aprontavam, a grande potência que resistira aos brados de guerra e não perdera a cabeça.

Mas os franceses sempre tiveram um fraco pelo jeito americano de ser e agir, um certo encanto com os bárbaros. Desde que Alexis de Tocqueville voltou de lá para explicar os americanos aos franceses, no século 19, a França não sabe se lamenta ou se imita os Estados Unidos, aquela estranha terra de novidades que fez a Revolução Republicana antes dela.

Verissimo

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Na mania pelo novo e pelo gadget, na sua busca da racionalização pela técnica, os franceses são muito mais americanos do que cartesianos. A cultura do desbravamento que acompanhou o crescimento dos Estados Unidos ‒ primeiro o da fronteira selvagem na conquista de um continente, depois o da industrialização, também selvagem, e as novas artes industriais que vieram atrás, tudo, enfim, que era rude e vulgar na experiência ameri­cana ‒ horrorizou e fascinou os franceses em partes iguais.

E a fascinação venceu. Os me­lhores músicos e críticos de jazz da Europa são fran­ceses, alguns dos melhores autores de livros noir, outra arte americana, são franceses, e, apesar de toda a suposta resistência da gas­tronomia francesa à barbárie culinária, a fast food reina en­tre os jovens.

A França in­ventou o cinema e sempre teve uma indústria cinematográfica forte, mas os heróis dos crí­ticos e diretores da Cahiers du Cinema e da nouvelle vague eram Sam Fuller, Nicholas Ray e outros primitivos. Já se disse que nada tipifica a atitude francesa com relação à cultura americana melhor do que o difícil romance da Simone de Beauvoir com o escritor Nelson Algren, notório bêbado e jogador de pôquer que era uma espécie de antiSartre, e dizem que não tirava o charuto da boca nem para beijá-la.

Chegou a virar piada a admiração de críticos de cinema franceses pelos filmes do Jerry Lewis. Uma teoria sobre o significado maior dos filmes de Lewis, facilmente gozável, mas instigante assim mesmo, era a da “destruição do cenário”. Nas suas comédias mais físicas, Lewis sempre acabava pondo abaixo um cenário, que representaria, para os críticos, os limites da invenção e da arte, ou a repressão social, ou ‒ no caso da sociedade francesa ‒ todos os es­crúpulos civilizados que a impediam de ser ainda mais americana e decidida. Inclusive, hoje, na sua reação ao terror em casa e na sua ação militar contra a Estado Islâmico no Oriente Médio, junto com os Estados Unidos. O horror forçou os franceses a uma conversão.

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