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Nº 221 | Ano 23 | MAR 2018
ARTE+
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Por Marcelo Menna Barreto

O Índio no espelho

Foto: Vídeo nas Aldeias/Divulgação

Foto: Vídeo nas Aldeias/Divulgação

Muitos viram ou pelo menos ouviram falar do documentário Martírio, do cineasta e indigenista franco-brasileiro Vincent Carelli (codirigido por Tita e Ernesto Carvalho), que conta a saga dos índios Guarani-Kayowaa para retomar suas terras. Poucos sabem, no entanto, que o filme que foi lançado em 2016 no Festival do Cinema de Brasília, exibido em algumas sessões especiais e percorreu inúmeros festivais antes mesmo de entrar em circuito comercial em 2017, faz parte de uma ONG que completará 32 anos de história em 2018, a Vídeo nas Aldeias.

Criado em 1986 por Vincent Carelli para produzir audiovisuais sobre os indígenas no Brasil e, com eles, ajudar a fortalecer sua identidade cultural e apoiar sua luta pela demarcação de seus territórios, em 1997 a Vídeo nas Aldeias ou simplesmente VNA como também é conhecida promoveu a primeira oficina de formação de produção audiovisual indígena na aldeia Xavante de Sangradouro, Mato Grosso. Na ocasião, foram distribuídos equipamentos na aldeia para gerar mobilização, interação e produção de conteúdos. A partir dessa experiência, algumas tribos se aproximaram de outras depois de tomarem conhecimento de sua existência em alguns vídeos realizados pelo projeto.

“Foi uma experiência e tanto, levada para outras tribos, inclusive para o registro de violência contra esses povos”, diz a jornalista Mônica Nunes que, por oito anos, dirigiu o site Planeta Sustentável e integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade. Em Martírio, Carelli também usa de imagens produzidas pelos Guarani-Kayowaa para contar sua história.

Segundo o roteirista e diretor Leandro Saraiva, formado em Ciências Sociais pela Ufrgs e pós-graduado em Cinema pela USP, no início a VNA era como um jogo de espelhos: filmar e mostrar imediatamente a imagem para os sujeitos filmados. Logo nas primeiras experiências, assistindo-se na tela e “empolgados com o jogo”, os índios entendiam imediatamente as possibilidades da câmera e tomavam para si a direção das gravações. Para Saraiva, Vincent Carelli “vê nesse processo os alicerces de seu aprendizado como cineasta, as bases éticas e o motor de seus filmes”.

O cineasta Vincent Carelli entre os Mbya Guarani, captando imagens para a ONG vídeo nas Aldeias

Foto: Vídeo nas Aldeias/Divulgação

O cineasta Vincent Carelli entre os Mbya Guarani, captando imagens para a ONG Vídeo nas Aldeias

Foto: Vídeo nas Aldeias/Divulgação

CINEASTA – Carelli, que veio da França para São Paulo com cinco anos de idade, pondera que, na verdade, entrou para o cinema sem querer. “A ideia era fazer algo com os índios. Eu era fotógrafo e trabalhei em várias frentes”, chegando a participar da experiência do Cedi (Centro Ecumênico de Documentação e Informação) durante a ditadura. Para o cineasta, a VNA começa com essa ideia, que não era fazer cinema, mas devolver as imagens e torná-las acessíveis para os indígenas. De fato, para Carelli, Vídeo nas Aldeias sempre foi um espelho para os índios: “para se verem, se pensarem e se repensarem; para encontrarem referências e tal… Com Martírio, virei o espelho para a sociedade brasileira, expondo a classe política em seu pior momento, em um Congresso Nacional que chegou ao limite do absurdo”, diz ao enfatizar que “é um espelho diante do qual a sociedade brasileira sai transtornada, pela consciência que ganha do seu desconhecimento, de uma dimensão da história do Brasil completamente oculta”.

Partindo do princípio de que toda história oficial é a história dos vencedores, Carelli critica o que chama mania de as pessoas o chamar de antropólogo. “Eu não sou antropólogo. Não que tenha alguma coisa contra, mas, pô, eu fico até constrangido… trabalhou com índio, é antropólogo”, explica.  Destaca, no entanto, que toda a filmografia que a Vídeo nas Aldeias produziu – a dos índios, das oficinas, a sua pessoal e a de outros membros da equipe – tem o sentido de complexificar. “Como é difícil ser reconhecido como índio! Cada povo tem a sua problemática contemporânea específica, dos Tupinambá aos Guarani das Reduções, um período histórico importante do Brasil, e por aí vai até chegar aos Awa-Guajá, semi-isolados, ainda, mas em pleno assédio de madeireiros. Índios ainda a serem contatados, que estão no olho do furacão.

SEDUÇÃO – Carelli ainda faz questão de dizer que a produção da Vídeo nas Aldeias tem na sua perspectiva irradiar experiências positivas no meio indígena e, para o público em geral, realizar um trabalho de sensibilização e entendimento mais profundo da história e da condição dos povos originários do país. “O cinema tem me obrigado a reflexões que talvez eu não fizesse se não estivesse engajado nessa produção. E também essa convicção, principalmente no caso brasileiro, de que é melhor investir em sedução cultural do que em confrontação política. É mais eficaz a longo termo, pois o cinema é uma das peças fundamentais desse jogo”, avalia.

Para o criador da VNA, com as novas tecnologias, hoje todos tem acesso à produção de imagens, mas é preciso continuar a fomentar processos de formação para estimular a produção de narrativas cinematográficas. “É maravilhoso ver como este interesse contagiou a juventude indígena assim como os mais velhos. Quando a gente sair do obscurantismo em que vivemos hoje, será fundamental pensar numa política pública de fomento ao cinema indígena”, afirma Carelli. Para ele, em uma civilização da comunicação, as minorias têm de garantir o seu espaço no imaginário nacional. “É uma questão de estratégia de sobrevivência”, evidencia ao ressaltar que a VNA é um trabalho em permanente transformação e que a cada momento pede uma proposta e uma contribuição específica. “Na primeira década foi a minha câmera a serviço dos projetos culturais dos povos com os quais trabalhei, muito focado nas dinâmicas internas das comunidades. Depois se tornou uma escola de cinema para índios, e a partir disso abriu-se”, comemora.

FINANCIAMENTO – Sediado em Olinda, desde a mudança de Carelli de São Paulo para Pernambuco, há 17 anos, a VNA já realizou trabalhos também fora do Norte do país com os Truká de Cabrobó e implantou um núcleo de vídeo entre os Fulni-ô de Águas Belas, em Pernambuco; atuou com os Guarani Mbya do Sul (RS, SP, RJ) e da Argentina, com os Guarani Kaiowa do Sul do Mato Grosso do Sul e com os Maxacali do interior de Minas Gerais. A organização também se fez presente com os Ayoreo do Chaco paraguaio e na Guiana Francesa. “A gente vai onde é possível de ter parceiros e financiamento, havendo a demanda dos índios”, explica Carelli.

Hoje, por sinal, financiamento é um dos gargalos da ONG. Com a saída em definitivo de aportes financeiros do governo da Noruega, que mudou seu foco de incentivo devido a mudança de política interna, o VNA está, nas palavras de Carelli, encolhendo para não desaparecer. “Estamos enxugando custos enquanto não encontramos novas janelas de financiamento”. Para se ter uma ideia, o VNA atualmente está à procura de um imóvel novo para alugar, pois estava sem condições de custear o aluguel de seu endereço antigo. A função de escola de cinema, que sempre foi a contribuição mais original, a de formar novos realizadores, está praticamente parada. Apesar disso, diz o cineasta, “continuamos produzindo filmes em parceria com os realizadores que formamos nas duas últimas décadas”. Em 2015, a VNA lançou o filme O mestre e o divino e, em 2016, Martírio, que integra uma trilogia iniciada com Corumbiara (2014) e deve ser concluída com o Adeus Capitão, que está em fase de conclusão da captação de imagens e deve entrar em edição ainda neste ano.

Devido ao Fundo Setorial do Audiovisual da Ancine não financiar projetos de ONGs, a VNA está em fase de ajustes, instituindo paralelamente a produtora Papo Amarelo, que assina junto Martírio. Desta maneira, explica Carelli, vai se tentar acesso as verbas do governo federal. Atualmente, além do apoio do fundo cultural do Estado de Pernambuco, que tem um forte investimento em produção cinematográfica, a ONG ainda aposta no apoio individual dos cidadãos através de financiamentos coletivos por crowdfunding. Martírio, por exemplo, recebeu o apoio de 977 pessoas nessa modalidade e ultrapassou na ocasião a meta de R$ 80 mil em R$ 5.910. “Já que nessa atual conjuntura o país não oferece subsídios para a cultura nacional, a gente não pode ficar parado”, enfatiza Carelli.

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