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Nº 221 | Ano 23 | MAR 2018
PALAVRA DE PROFESSOR

Por Regina da Costa da Silveira - Doutorado em Letras UFRGS e Pós-doutorado em Letras UFRJ/2017

 

Com o início do ano letivo de 2018, os sentimentos dos professores demitidos das instituições particulares, no período de julho a dezembro de 2017, são, de fato, misturados. Para alguns, poucos, a aposentadoria e a liberação do FGTS eram garantias aguardadas a cada final de ano. Para justificar essas demissões em massa, no entanto, as instituições de ensino costumam apregoar que tudo vem sendo executado pela renovação, pela qualidade e de acordo com a avaliação dos alunos a seus professores, e usam o termo “reestruturação” no intuito de atestar não só o desligamento dos professores, mas para dar conta da redução de carga horária e de salário dos professores contratados mediante a Reforma Trabalhista. No UniRitter, somamos mais de 127 professores demitidos em dezembro, dez dias antes do Natal, poucas semanas após a dita Reforma.

Com a suspensão dos cursos de pós-graduação, como foi o caso do Programa de Mestrado e Doutorado em Letras, a redução drástica do quadro de professores foi inevitável, enquanto os critérios da Capes passaram a ser desrespeitados, já que a avaliação pouco importa para um curso agora em extinção. A consequente troca de orientadores, entretanto, trouxe inquietação e insegurança para os alunos que lá devem permanecer até concluírem suas teses e dissertações, ao que se soma a preocupação com a qualidade de um diploma assinado por uma instituição que dispensa os cuidados previstos para a manutenção da qualidade do ensino e da pesquisa mediante os órgãos de fomento do país.

Com a demissão em massa dos professores, não se explica, portanto, o processo de extinção dos cursos sem o devido respeito às especificidades das linhas de pesquisa e dos projetos de extensão a que se vinculam os trabalhos de teses e de dissertações em desenvolvimento ou já acabados, sob a orientação de muitos desses docentes demitidos. Nenhuma garantia será ainda assegurada para a continuidade de um ensino coerente com a realidade dos alunos, sem o respeito às regras para a preservação da sua qualidade.

O rolo compressor das despesas com que se quer justificar tantos fatos que advêm das demissões não pode, contudo, mensurar os prejuízos morais sofridos pela grande maioria dos profissionais que vêm sendo demitidos de modo sistemático. Sequer uma instituição poderá explicar à comunidade escolar a reformulação dos currículos feita à revelia do seu corpo docente, responsável direto por sua operacionalização em sala de aula, alteração em que o prejuízo irreparável recai sobre os discentes, ou melhor, sobre aqueles que são transformados simplesmente em “consumidores”, seus “clientes”.

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