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Nº 225 | Ano 23 | JUL 2018
MARCOS ROLIM
COLUNISTA

Rita, a professora e os milagres

Foto: Divulgação/Netflix

Foto: Divulgação/Netflix

“Aos 44 anos, mãe de três filhos e solteira, ela não respeita as regras. É atraente e mantém uma vida sexual intensa, o que inclui encontros casuais em espaços públicos com diferentes parceiros”

A TV como a conhecemos não existirá por muito tempo e a TV por demanda (TV on demand) talvez seja só um sintoma de mudanças mais radicais pela frente. Nesse ambiente de inovação, a experiência da Netflix se destaca e impressiona por vários aspectos. Um deles é a oferta de excelentes produções regionais europeias, latino-americanas e asiáticas, muito além dos enlatados norte-americanos que seguem sendo servidos em profusão pelos canais abertos e por assinatura. Nesse artigo, comento (sem spoilers) sobre a séria dinamarquesa Rita, que trata dos desafios da educação na escola pública.

Assim como em Merli (outra série bacana da Netflix), o tema de Rita é a escola, seus limites e possibilidades. Há, por óbvio, amplas diferenças culturais se tivermos em mente a realidade dos países nórdicos e a dos países latino-americanos, por exemplo, mas os conflitos abordados na série têm muito em comum com a realidade de qualquer escola no mundo e lidam com o que há de universal na agência humana. A Dinamarca é um pequeno país que construiu uma experiência notável de igualdade e democracia característica dos chamados Estados de Bem Estar Social (Welfare States), mas problemas como indisciplina, bullying, homofobia, gravidez na adolescência, uso de drogas e tráfico, inclusão de imigrantes, doença mental, entre outros, estão presentes em suas escolas. Como se pode observar na série, políticos demagogos e não comprometidos com o ensino público não são exclusividade brasileira e falta de recursos para a Educação e pais e mães negligentes ou superprotetores que produzem danos às crianças também são fenômenos presentes nos países mais desenvolvidos.

Rita (Mille Dinesen) é uma professora excepcional por conta de sua disposição de lutar por seus alunos. Aos 44 anos, mãe de três filhos e solteira, ela não respeita as regras. É atraente e mantém uma vida sexual intensa, o que inclui encontros casuais em espaços públicos com diferentes parceiros. Rita fuma e bebe muito – em um país onde há grande consumo de bebidas alcoólicas e grande incidência de tabagismo. Ela parece fazer pouco caso de si própria, mas sua dedicação e cuidado com os alunos são admiráveis. A rebeldia de Rita, entretanto, revela uma estrutura moral, não uma contestação diletante.

Para explicar isso, retomo Kohlberg (1927-1987) que identificou o processo de formação da consciência moral. Para ele, a infância seria marcada por uma “moralidade pré-convencional”, basicamente autocentrada e egoísta, onde há, primeiramente, uma orientação para a punição e a obediência e, depois, uma orientação hedonista. Na adolescência e na vida adulta, o nível de moralidade mais comum seria o “convencional”, onde se assume, inicialmente, uma postura de identificação com os valores do grupo e, depois uma conduta pela “Lei e a Ordem”. Nesse estágio, onde se situa a maioria dos adultos, a noção de justiça é marcada pela crença na “punição dos transgressores”. Haveria, entretanto, um nível superior de consciência moral, o da “moralidade pós-convencional”, onde se descobre que, sim, deve-se respeitar as leis, mas nem sempre as leis são justas e há circunstâncias em que é legítimo descumpri-las, o que vale também para a recusa de recebimento de vantagens legais, mas imorais. Nesse nível avançado do desenvolvimento moral, o estágio superior seria aquele em que o sujeito orienta suas ações pela validade de princípios universais. A ideia de desobediência civil, aliás, que pressupõe a decisão de submeter-se à punição pela inobservância de norma injusta, se funda nesta compreensão. Neste estágio de moralidade, o princípio proposto por Kant segundo o qual as pessoas devem ser concebidas como fins e nunca como meios seria, então, alcançado.

Rita tem um senso moral pós-convencional, por isso, é tão diferente, admirável, incompreendida e temida. Sua conduta, entretanto, a expõe sistematicamente, o que lhe agrega dissabores e sofrimentos, notadamente em suas relações pessoais.

Há, em vários episódios, momentos hilários e a atriz coadjuvante, Lise Baastrup, que faz a personagem Hjørdis, nos garante alguns deles com brilho. Ao mesmo tempo, o enredo vai delineando uma tessitura de relações sociais complexas, nas escolas e fora delas, alcançando uma densidade que cativa e estimula a reflexão. Rita é, sobretudo, uma professora engajada, que disputa seus alunos, notadamente aqueles cujos destinos lhe parecem ameaçados pelo mundo.

Talvez o que exista de melhor e de mais relevante na escola seja, exatamente, a possibilidade dela proteger crianças e adolescente da maldade do mundo. Hannah Arendt entendia que a Escola é o espaço intermediário entre o público e a vida privada das famílias. Para ela, não cabia à escola “ensinar a viver”, mas ensinar o que é o mundo, a partir do acesso ao patrimônio cultural construído pelas gerações passadas e pelo estímulo ao pensamento. Uma missão dessa gravidade exige muitas Ritas. São elas, afinal, que fazem com que o novo apareça sempre, como o disse Arendt, “sob o disfarce de um milagre”.

 

 

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