Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 228 | Ano 27 | OUT 2018
MARCOS ROLIM
COLUNISTA

 

Foto: Divulgação

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Hitler jamais foi promovido nos quatro anos em que esteve no front. Há indícios de que uma das razões para isso tenha sido o fato de ter sido flagrado em comportamentos homossexuais

 Em 1943, em plena segunda Guerra Mundial, o Escritório de Serviços Estratégicos (Office of Strategic Services) dos EUA, órgão precursor da CIA, desejou conhecer mais profundamente o perfil psicológico de Adolf Hitler. Para tanto, contratou o psicanalista Walter Charles Langer que examinou os dados biográficos do líder nazista então disponíveis e os depoimentos prestados por uma dezena de pessoas que o haviam conhecido ou convivido com ele. O estudo de Langer permaneceu um documento secreto até 1972, quando foi apresentada ao público a primeira edição do livro The mind of Adolf Hitler. Esse trabalho foi lançado esse ano no Brasil com o título A mente de Adolf Hitler, o relatório secreto que investigou a psique do líder da Alemanha Nazista (editora LeYa, 268 pág.) e merece ser lido com atenção.

O perfil a que Langer chegou é surpreendente não apenas pela circunstância de que o sujeito avaliado não havia sido escutado psicanaliticamente, mas também porque as fontes de informação sobre Hitler eram muito rarefeitas. Na verdade, os aliados pouco sabiam, naquele momento, sobre as engrenagens de poder no alto comando nazista e mesmo a real natureza dos campos de concentração não era conhecida. Ainda assim, o estudo produz um perfil psicológico detalhado e o autor agrega estimativas sobre a conduta do líder nazista e previsões que se confirmaram plenamente. Langer previu, por exemplo, que Hitler cometeria suicídio (este seria “o desenlace mais plausível”, escreveu) e, também, que os generais alemães mais capazes e, portanto, com maior potencial crítico, seriam afastados e que, provavelmente, tentariam um golpe.

Hitler foi uma criança aterrorizada por seu pai, um alcoolista que batia nos filhos até deixá-los inconscientes. A mãe dedicou-se inteiramente à vida doméstica e, ao que tudo indica, Adolf era seu favorito. A família sofreu muito com doenças e com a perda de pelo menos três crianças. A experiência de ter sobrevivido pode ter tido um papel na noção mística de Hitler sobre si mesmo, segundo a qual ele seria um “predestinado”. O “complexo de Messias”, aliás, o acompanhou sempre e muitos dos seus seguidores acreditavam piamente que ele havia sido ungido por Deus. Não por acaso, o discurso nazista e sua simbologia foram sempre atravessados pelo fervor religioso.

O jovem Adolf foi um aluno medíocre que se viu largado no mundo após a morte de sua mãe. Ele viveu em condições de extrema pobreza, sobrevivendo por alguns anos sem emprego fixo, esmolando e frequentando filas de sopa. Então, veio a Iª Guerra e ele se alistou como voluntário. Em seu regimento, era ridicularizado por seus pares por conta de seu jeito estranho (entre outras bizarrices, passava horas limpando seu uniforme) e, sobretudo, por ser extremamente servil aos superiores. Hitler jamais foi promovido nos quatro anos em que esteve no front. Há indícios de que uma das razões para isso tenha sido o fato de ter sido flagrado em comportamentos homossexuais. Embora não haja certeza sobre sua orientação sexual, sabe-se que ele não apreciava as mulheres sendo sua misoginia suficientemente documentada. Terminada a Guerra, Hitler retorna a Munique, onde denuncia colegas como “envolvidos em atividades comunistas”. O Exército, então, o encarrega de instruir soldados sobre teoria política, oportunidade na qual ele revela talento oratório e inicia sua caminhada propriamente política.

No início, muitos se recusaram a levá-lo a sério. Langer observa que seria um simplismo considerar Hitler um louco e que, antes disso, seria preciso reconhecer a loucura alemã que o produziu. Uma parte dessa loucura diz respeito à forma como a maior parte da população reagiu à propaganda nazista. O mecanismo foi descrito com notável cinismo pelo próprio Hitler em um diálogo com Sir Neville Henderson, embaixador do Reino Unido na Alemanha nos anos que antecederam a IIª Guerra. Sintetizando sua estratégia, Hitler observou: “Há pouco espaço num cérebro ou, por assim dizer, pouco espaço de parede e, se você mobiliá-lo com seus slogans, a oposição não terá lugar para pendurar seus quadros, porque o aposento do cérebro já estará abarrotado com sua mobília”.

Com efeito, os nazistas lotaram os cérebros alemães com afirmações simplórias e senhas para o ódio. Os slogans funcionavam como antídotos ao pensamento, criando a atmosfera própria para que a perseguição, a tortura e o assassinato de judeus, de minorias e de oponentes políticos se tornassem parte da paisagem. O efeito foi alcançado, assinale-se, em uma época em que o rádio era o meio de comunicação social mais importante. Uma estratégia de propaganda como aquela empregada pelos nazistas que contasse com os recursos contemporâneos de comunicação social, notadamente com as redes sociais, seria, seguramente, muito mais eficiente e destrutiva.

O Hitler que surge do perfil psicológico feito por Langer está longe de ser o “mito” da propaganda nazista. O “Führer” foi, na verdade, um homem atormentado, incapaz de se dedicar a qualquer tarefa que demandasse estudo e concentração; inseguro sempre que obrigado a se encontrar com intelectuais ou jornalistas; incapaz de conversar normalmente e de prestar atenção nos demais; atormentado por pesadelos atrozes e por ataques de fúria, incapaz de tomar decisões em momentos decisivos e dirigido por suas perversões e pelo ódio à humanidade. Um tipo assim, digamos, que pode aparecer em qualquer país, em qualquer eleição, em busca da loucura das pessoas normais.

 

 

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