Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 228 | Ano 27 | OUT 2018
LUIS FERNANDO VERISSIMO
COLUNISTA

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Fora as vítimas do nazismo e do stalinismo, todos se exilaram por iniciativa própria, mesmo que a iniciativa fosse incentivada

Não estou sugerindo nada, mas por pura coincidência tenho relido trechos do livro de Edward W. Said intitulado Reflections on Exile, em que o crítico e ensaísta reflete sobre vários tipos de desterro. Said ficou famoso com o livro Orientalismo, sobre os clichês e lugares-comuns do pensamento europeu a respeito do Oriente Médio, e notório por ser o único não judeu – ele era palestino – da elite intelectual de Nova York, o que não impediu que fosse respeitado mesmo por quem não concordava com suas posições políticas. Nas suas reflexões sobre o exílio, Said se concentra nos efeitos do expatriamento, se é que existe a palavra, no mundo literário, começando pelo proto-exilado Dante, banido de Florença, e incluindo o autoexilado de Dublin James Joyce, o longe da Irlanda Beckett, o longe da Rússia Nabokov, os longes dos Estados Unidos Hemingway e Fitzgerald, todos os corridos de suas terras pelas ondas fascista e comunista, e o pai de todos os transplantados, Joseph Conrad, o polonês com o melhor texto em inglês que se conhece.

Fora do mundo literário, o exílio perde toda a conotação intelectual ou romântica. Sobra a realidade trágica das migrações de multidões fugindo da fome e da guerra. O crítico George Steiner, citado por Said, chegou a propor que boa parte da literatura ocidental moderna é “extraterritorial”, uma literatura feita por exilados ou sobre exilados, simbolizando a era dos refugiados que começou no fim do século 19, nos estertores do colonialismo, e desde então só ficou mais terrível. Nas categorias de exilados arrolados por Said, fora as vítimas do nazismo e do stalinismo, todos se exilaram por iniciativa própria, mesmo que a iniciativa fosse incentivada. Como no caso do Brasil depois do golpe de 1964, quando recebemos a ordem de amar o Brasil ou deixá-lo. Amar o Brasil, no caso era amar a ditadura.

Você eu não sei, mas eu estou fazendo planos para qualquer eventualidade. O mais irrealizável e por isso mesmo mais atraente é desenferrujar meu saxofone e ir tocar no metrô de Paris, para garantir o croissant das crianças.

 

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