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Nº 229 | Ano 27 | NOV 2018
ARTE+
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Por Lelei Teixeira
Especialista em literatura gaúcha e uruguaia, Schlee publicou mais de 15 livros, entre contos, ensaios e romances, e sua obra integra mais de seis antologias

Foto: Gilberto Perin

Especialista em literatura gaúcha e uruguaia, Schlee publicou mais de 15 livros, entre contos, ensaios e romances, e sua obra integra mais de seis antologias

Foto: Gilberto Perin

Doutor em Ciências Humanas, Aldyr Garcia Schlee é muitos – escritor, jornalista, tradutor, desenhista, professor universitário. Criou jornais. Ganhou prêmios literários e jornalísticos. Fundou a Faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas/UCPel e de lá foi expulso durante o golpe militar de 1964, quando foi preso. É natural de Jaguarão, onde nasceu em 22 de novembro de 1934, cidade ligada à uruguaia Rio Branco por uma ponte, fronteira que marca profundamente sua criação literária. A ponte está estampada na capa do seu livro mais recente, O Outro Lado – Noveleta Pueblera (Editora Ardotempo, 152 páginas, 2018), em foto assinada pelo amigo e fotógrafo Gilberto Perin.

Especialista em literatura gaúcha e uruguaia, Schlee já publicou mais de 15 livros, entre contos, ensaios e romances, e sua obra integra mais de seis antologias. O autor afirma que sua literatura tem como foco principal a identidade cultural que permeia as relações fronteiriças, os outros lados que pontuam as relações humanas na região. É por essa paixão que Schlee também se dedica à finalização do Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense, obra de fôlego que ele assina sozinho.

"A fronteira é para mim uma espécie de espelhismo. Meu mundo literário está vinculado fortemente com esta fronteira, com o outro lado do rio, onde está o Uruguai. Não é uma terra só"

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

O Outro Lado, a segunda novela que Schlee escreve em três décadas e que define como uma “noveleta pueblera”, traz personagens simples, desgarradas, esquecidas no tempo, de quem pouco se ouve a voz ou se percebe a emoção. A história de abandono, amor, culpa e prazer revela nas entrelinhas a densidade e a esperança de vidas mergulhadas em rotinas previsíveis, mas cheias de desejos e de exuberante humanidade. A narrativa conduz o leitor por um universo aparentemente pueril, mas que comove, em especial pelo não dito.

Há saudade. Há desespero. Há solidão. Há uma turbulência de sentimentos contidos, traduzidos por uma tempestade de raios e trovões que produz um cenário épico, coerente com a dimensão da tragédia anunciada e silenciada. E há uma busca de explicação para aliviar alguma culpa. A culpa do peão que procura entender porque os muito ricos têm tanto dinheiro e porque os que nada têm nunca terão condições de conquistar algum recurso para superar suas próprias carências. A culpa da jovem que procura entender o prazer em meio à tragédia.

ENTREVISTA

Uma novela muito simples, muito modesta, de gente humilde

"As marcas pessoais dos personagens, por conta de suas culpas e por seus prazeres nunca revelados, os definem e, ao mesmo tempo, os isolam"

Foto: Gilberto Perin

Foto: Gilberto Perin

Nesta entrevista à repórter Lelei Teixeira, possivelmente uma das últimas concedidas pelo autor que faleceu no dia 15 de novembro, Schlee falou sobre o contexto do seu livro O Outro Lado – Noveleta Pueblera (Ardotempo, 152 p., 2018).

Extra Classe – Como situar O Outro Lado na tua produção literária? O que queres dizer quando defines o livro como uma noveleta pueblera?
Aldyr Garcia Schlee – Defino o livro como uma noveleta pueblera por suas próprias características, porque definitivamente não é um romance. É uma novela muito simples, muito modesta, de gente humilde, que se passa em uma área geográfica específica, na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, mais para os lados uruguaios, em um tempo não definido.

EC – Como foram criadas as personagens, desgarradas e esquecidas, que se encontram em algum momento e vivem um amor puro e de esperança?
Schlee – Resgatei velhos personagens dos meus contos para fazer esta novela. Marita, a figura central da história, vem de um conto com o mesmo nome dela. José Jacinto vem de um conto chamado Dinheiro Velho, e tem uma dívida com ele mesmo devido a um achado em uma de suas andanças. As marcas pessoais dos personagens, por conta de suas culpas e por seus prazeres nunca revelados, os definem e, ao mesmo tempo, os isolam. Eles estão juntos, mas um não sabe nada do outro. Seguem calados. “A guria chorava de mansinho na garupa, soluçando vez que outra”. Precisava “aprender de novo a não ter medo de sonhar para de novo tomar gosto por viver”. Suas vidas emocionam pelo que está nas entrelinhas da novela, pelo que flutua sobre a história e vai deixando rastros. E há ainda Dona Celeste, que é puro encantamento e que parece entender tudo.

EC – O que significa esta fronteira na tua história?
Schlee – A fronteira é para mim uma espécie de espelhismo. Meu mundo literário está vinculado fortemente com esta fronteira, com o outro lado do rio, onde está o Uruguai. Não é uma terra só. É o outro lado. E eu ainda não entendi a diferença que há entre um lado e outro. É o mesmo lado. É onde a gente se vê, onde a gente se reconhece, onde a gente se espelha. Por isso, minha literatura é toda perpassada por esta marca.

EC – Estás finalizando o Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense. O que te levou a produzir uma obra como esta?
Schlee – Este dicionário que estou produzindo e que está quase no final é uma obra personalista. É o meu dicionário. Traz a minha perspectiva de mundo, o meu posicionamento sobre o processo cultural pampeano, sobre a cultura de uma região fronteiriça. Cada verbete é uma grande dissertação, mesmo sintético na sua escritura.

Sobre o autor, leia também no Extra Classe:
Escrita visceral, entrevista de Schlee a Stela Pastore e Renato Dalto.

 

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