EDUCAÇÃO

Luz, câmera, pandemia, ação!

De uma hora para outra, muitos professores e tantos outros profissionais começaram a se preocupar com o cenário, com o que de suas casas aparece e com o que isso diz sobre si mesmos
Por Renata Heinz* / Publicado em 21 de dezembro de 2020

Luz, câmera, pandemia, ação!

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Estamos em casa. Aqui do alto desse privilégio, tudo adquiriu ares de um especial BBB2020 que já dura um ano. Reuniões em vídeo. Terapia em vídeo. Yoga em vídeo. Amigos em vídeo. No início da pandemia tinha um pesadelo onde ia ao banheiro no meio da reunião sem desligar a câmera. Aconteceu. Não comigo. Não que eu lembre.

De uma hora para outra, nossa casa virou cenário de aulas e nós viramos protagonistas de um Show de Truman. A melhor parede não tem a melhor luz. Tira o quadro polêmico, coloca uma samambaia e abre a câmera: hora da aula. Com um sorriso no rosto você encara as bolinhas silenciosas com as iniciais de alunos que você nunca viu. Com um sorriso que desmancha depois do segundo: “Carlos, você está aí?”, você encara o próprio rosto no aplicativo. Um rosto cansado de adaptar conteúdos e tarefas práticas para o ambiente virtual. Um animador de uma plateia dispersa sem qualquer domínio da câmera. Surge um autorretrato desafiador que aponta todas as falhas salvas na nuvem. Depois do terrorismo de uma escola sem partido, um filme tenso que tira qualquer espontaneidade da lição.

De uma hora para outra, muitos professores e tantos outros profissionais começaram a se preocupar com o cenário, com o que de suas casas aparece e com o que isso diz sobre si mesmos. Muitos investiram na clássica estante de livros. Outros se contentam – resignam – com paredes brancas ou a vida acontecendo em segundo plano. O chinelo na frente da porta. O copo de leite meio vazio – ou meio cheio – sobre a mesa. Os brinquedos das crianças pelo chão. Alguém que pendura a roupa lavada no varal da área de serviço. O cachorro latindo pra janela. O vizinho martelando. O caminhão do lixo. E as folhas da minha samambaia, mal colocada na estante, desenham orelhas verdes em mim.  Como diretora de arte para audiovisual confesso que falhei.

Não investi no mundo real o tanto que dedico aos filmes. Como diretora contei histórias paralelas nos enquadramentos de última hora, na falta de luz e equipamentos profissionais, na internet falha, nas olheiras, no cabelo com raízes aparentes. A vida sem retoque nem sempre é o reflexo que queremos ver no espelho ou na tela do computador e do celular. Se encontrar com a própria insegurança é entender um pouco os nossos alunos e suas câmeras fechadas. Nos tempos de “instagramers” e suas vidas perfeitas, pode ser prova de coragem deixar a parede branca, a mãe abanando na janela e a aparência de estar tendo muitos problemas nesse 2020 (e quem não?). No princípio, talvez, estranhem o abandono do figurino e da maquiagem e seja um choque perceber que parte de nós não é personagem.

Coloco a cadeira perto da janela. Quem não tem ring light precisa escolher: pele ou cenário. Uso meu melhor ângulo, exibo o velho moletom e sigo meu repertório acadêmico. Entre meus filmes velhos, faço um altar aos deuses do cinema e rezo escondida para que a Sputnik, ou qualquer uma que nos valha, nos salve do novo real.

*Professora do curso de Realização Audiovisual (CRAV) e do curso de Fotografia da Unisinos. Diretora e roteirista de filmes atua ainda como diretora de arte em séries televisivas, filmes de ficção, documentários e videoclipes.

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