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16/06/2016
POLÍTICA
DENÚNCIA

Historiadores apontam uma série de irregularidades cometidas pela atual administração e incompatibilidade do atual diretor com o cargo
Por Cleber Dioni Tentardini

Historiadores gaúchos estão preocupados com o valioso acervo do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa. Eles apontam uma série de irregularidades cometidas pela atual administração. Citam, por exemplo, a interdição total do Setor de Imprensa, sem justificativa, a desorganização dos arquivos e a incompatibilidade do arquivologista Yuri Victorino da Silva em exercer o cargo de diretor da instituição, ao mesmo tempo em que é o diretor responsável pelo Centro de Memória e Informação Pessoal (CEMIP), empresa comercial desse mesmo segmento cultural.

Depois de esgotarem as tentativas de reunião com o secretário de Estado da Cultura, Victor Hugo, no dia 11 de maio os pesquisadores encaminharam ao Ministério Público do Rio Grande do Sul um pedido de afastamento imediato do diretor do Museu Hipólito.

Museu de Comunicação sob suspeita

Foto: Igor Sperotto

Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, na esquina da rua dos Andradas com Caldas Jr., no centro de Porto Alegre

Foto: Igor Sperotto

Enviaram um ofício, também, com pedido de providências ao Conselho Regional de Museologia – COREM 3ª Região. A presidente do órgão, Jeanice Ramos, argumentou que não era competência do Conselho intervir na decisão da instituição em manter seu Setor de Imprensa fechado, assim como julgar um possível conflito de interesses envolvendo o diretor do Musecom “já que o mesmo não é museólogo registrado nesse Conselho e a ele não poderíamos aplicar os princípios do Código de Ética Profissional.”

As promotoras de Justiça Ana Maria Marchesan e Josiane Camejo, e o promotor Alexandre Saltz, da Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre, que é responsável também por zelar pelo patrimônio cultural, promoveram uma audiência com o titular da Sedac. Orientaram o secretário pelo afastamento do diretor, tendo em vista o conflito de interesses. Porém, não houve quaisquer mudanças, segundo os historiadores.

No dia 10 deste mês de junho, uma pessoa que não é funcionária foi vista na portaria do Museu saindo com duas malas. Detalhe: eram por volta das 19h30 e as portas já estavam fechadas. Ela estaria de posse de uma autorização com assinatura do diretor. As informações são de fontes que preferem não ser identificadas.

Os historiadores entraram novamente em contato com a Sedac e com o Ministério Público para informar o ocorrido, e decidiram levar ao conhecimento público porque estão ainda mais apreensivos.

“Preocupa-nos o fato de não saber o que está acontecendo lá, ninguém sabe o que havia nas malas, não temos nada pessoal contra o diretor, mas há no mínimo uma questão antiética, um conflito de interesses do senhor Yuri como diretor”, argumenta a coordenadora do Curso de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Zita Possamai.

O promotor Alexandre Saltz esteve reunido novamente com o titular da Cultura. Victor Hugo informou que iria consultar a Procuradoria Geral do Estado (PGE) a fim de verificar alguma ilegalidade na nomeação do diretor do Museu Hipólito.

Uma consulta feita em maio ao site da empresa CEMIP constava a negociação de bens culturais, entre os quais, peças do mesmo gênero daquelas pertencentes ao acervo do Hipólito. Logo depois da audiência com as promotoras de Justiça foi apagado do site da empresa o link “sala de negócios” e a opção para o comércio de bens culturais, entre os quais as peças da coleção Hardy Vedana. Os historiadores mostraram às promotoras a documentação comprovando a disponibilidade dos dados e opções anteriormente à sua exclusão do site da empresa.

Em pesquisa mais recente verificou-se que o link ‘sala de negócios’ voltou ao ar, mas a opção para o comércio de bens culturais foi substituída por setor de trocas. Houve mudanças também nos bens antes disponíveis para venda, deixando apenas fotos de moedas, objetos que o Hipólito não possui na sua coleção.

O presidente da seção gaúcha da Associação Nacional de Professores Universitários de História (ANPUH), José Iran Ribeiro, cita que a legislação que denomina “conflito de interesses” é a Lei 11.904 – Estatuto de Museus. O Art. 16 do capítulo que trata dos Museus Públicos diz que: É vedada a participação direta ou indireta de pessoal técnico dos museus públicos em atividades ligadas à comercialização de bens culturais. Quem fiscaliza o cumprimento da lei é o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).

A reportagem entrou em contato na terça-feira, 14, com a Secretaria da Cultura e com o Museu Hipólito. As assessorias dos dois órgãos públicos informaram que o secretário de Cultura e o diretor do Hipólito não comentariam o assunto.

Yuri assumiu a direção do Museu no dia 2 de junho de 2015, a convite do secretário Victor Hugo. Ele é formado em Arquivologia pela UFRGS e funcionário publico concursado da TVE, onde ingressou em 2002 como repórter cinematográfico. Está cedido da Fundação Piratini para a Secretaria da Cultura.

Sem acesso à pesquisa
Outra questão que preocupa os historiadores, além da permanência do atual diretor, é o Setor de Imprensa, fechado desde fevereiro. “Não há justificativa. Disseram que haveria obras, mas não há. Estão privando o trabalho dos pesquisadores e estudantes, que dependem do acervo dos jornais e revistas”, afirma a historiadora Alice Trusz.

O portal do Museu Hipólito informa que “Devido aos trabalhos técnicos desenvolvidos na Hemeroteca (Jornais e Revistas), Fotografia, Publicidade e Tridimensionais, ficam suspensos os atendimentos para pesquisas (exceto ações educativas). As ações em andamento fazem parte do planejamento de reestruturação da instituição. As mudanças são necessárias para garantir de forma responsável a acessibilidade aos conteúdos das coleções. As áreas de exposições continuam em funcionamento. A previsão do retorno ao atendimento é no final de julho.”

O ex-diretor do Musecom, no último ano da gestão Tarso Genro, Luiz Vieira Inda, disse que a Secretaria de Cultura havia obtido recursos do Governo Federal – via PAC Cidades Históricas, para a restauração do prédio. E que o maior problema do Setor de Imprensa seria o telhado, com problemas de infiltração. “Quando chovia muito, alagava parte do setor, um problema crônico, de muito tempo. A previsão era iniciar a obra em 2016, mas não sei se está sendo feito”, explica Inda.

O historiador José Iran Ribeiro, da ANPUH-RS, reclama também das dificuldades de dialogar com a Secretaria de Cultura. “Desde que assumi a presidência da Associação, há quase dois anos, solicitamos audiência para tratar da situação deplorável do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRS), mas não fomos recebidos. Depois, o Museu do Carvão, em Arroio dos Ratos, foi fechado por falta de pessoal. E, agora, esses problemas graves no Hipólito. Isso demonstra que não existe política de cultura do governo do RS e o secretário nem ao menos se dispõe a conversar com os segmentos profissionais interessados nestas instituições que guardam patrimônio público inestimável.”, completa.

Referência em comunicação
O Museu é subordinado à Secretaria de Estado da Cultura. Foi criado através de decreto em 10 de setembro de 1974 com a finalidade de guardar, preservar e difundir a memória dos meios de comunicação no Rio Grande do Sul.

Possui o maior acervo jornalístico do Rio Grande do Sul, referência como centro de guarda e pesquisa documental sobre imprensa, cinema, fotografia, televisão, rádio e publicidade, e atrai pesquisadores locais, de outros estados e países. Seu Setor de Fotografia, por exemplo, conta parte da história política, econômica e social do Rio Grande do Sul. Preserva o acervo oficial, como os do Palácio Piratini, além de coleções particulares, como dos gaúchos Miguel Castro (1924) e Salomão Scliar (1925-1991), e retratos de estúdios famosos da cidade, como Otto Shönwald, Irmãos Ferrari e Vírgilio Calegari. As imagens sobre Porto Alegre e o Rio Grande do Sul abrangem o período desde 1880 até os dias atuais.

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