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20/12/2017
ENTREVISTA | LUIS ARRIETA
CULTURA

Por Gilson Camargo
Ana Botafogo e Luis Arrieta, no espetáculo 'O Cisne', na Virada Cultural 2014, Palco Anhangabau

Foto: Paulo Liebert/ Milenar Imagem/ Divulgação

Ana Botafogo e Luis Arrieta, no espetáculo ‘O Cisne’, na Virada Cultural 2014, Palco Anhangabau

Foto: Paulo Liebert/ Milenar Imagem/ Divulgação

O bailarino, coreógrafo e diretor artístico Luis Arrieta, uma das mais influentes figuras da dança no Brasil comemora 45 de carreira – pisou em um palco pela primeira vez em 1972. Autor de mais de 150 coreografias e atuante aos 66 anos, ele produziu e executou diversos trabalhos durante o ano, entre os quais Os Corvos, metáfora sobre a transição entre vida e morte, na qual divide o palco com outro bailarino “sênior”, Luis Ferron; e a coreografia da opereta La Belle Hélène, do compositor Jacques Offenbach, montagem dirigida por Caetano Vilela, que estreou em novembro no Theatro São Pedro, em São Paulo. Também participou do 10º Visões Urbanas, iniciativa da Secretaria da Cultura que leva espetáculos para espaços públicos, com Homeland Duo 2, com a soprano belga Noemi Schellens. Os Corvos terá apresentações em 2018 pelo interior de São Paulo, pelo ProacSP. Descendente de imigrantes bascos do extremo-norte espanhol e indígenas das etnias diaguita e calchaquíe, remanescentes incas das províncias platinas, Arrieta nasceu no subúrbio de Buenos Aires, na primavera de 1951. Suas coreografias, diz, são influenciadas pela atmosfera de “silêncios e movimentos” da infância e pela mística da avó índia, Camila. “Sou uma das raridades que ainda dançam e gosto de dançar. Não tenho mais o vigor da juventude, se é que alguma vez tive. Mas tenho tudo o que já foi estimulado em meu corpo. É o melhor que posso oferecer”, afirma nesta entrevista ao Extra Classe.

Extra Classe – Por que se considera um artista da memória?
Luis Arrieta – Cada um de nós é resultado das suas vivências e memórias. No meu caso, elas aparecem depois que o trabalho está concluído. Muitas vezes até depois da estreia, quando posso contemplar essas memórias como se estivesse descobrindo no que eu acabei de dizer aquilo que eu nem mesmo sabia que estava latente.

Com Luis Ferron, em 'Os Corvos', 2017: metáfora sobre vida e morte

Foto: Clarissa Lambert/ Divulgação

Com Luis Ferron, em ‘Os Corvos’, 2017: metáfora sobre vida e morte

Foto: Clarissa Lambert/ Divulgação

EC – Como as referências da infância aparecem nas coreografias?
Arrieta – A primeira coreografia, que estreou em 24 de outubro de 1977 no Brasil, se chama Camila, nome da minha avó materna, que tinha acabado de falecer e estava muito presente. Com o tempo, algumas pessoas com mais experiência e mais capacidade de ler coreografia me contaram como elas visualizavam a trajetória de uma mulher nesse trabalho, possivelmente aquela história da memória presente. No caso, é uma influência profundamente espiritual, percebo agora que já sou velho. Ela era uma mulher simples do norte da Argentina, de ascendência indígena, suave, carinhosa, de movimentos delicados, cujo olhar pairava num horizonte imaginário, como se contemplasse sempre e ao mesmo tempo o passado e o futuro. A coisa teatral sempre me chamou muito a atenção. Sou de uma época em que mesmo sendo filho de operário, meu pai era confeiteiro, a gente ia muito ao cinema, ao teatro, tínhamos acesso à ópera, operetas. Uma época culturalmente diferente. Isso me fez muito observador de tudo que era comunicação que não incluísse a palavra. Tinha um registro assim de tudo que se relacionasse com o movimento. Assim, qualquer mínimo gesto passa a ter um valor muito grande, porque essa era a minha formação.

EC – O que representa a dança para você?
Arrieta – Comecei a estudar dança em 1972, em Buenos Aires, porque em algum momento tinha que iniciar aquele aprendizado. Tinha a dificuldade de um despreparo muscular, mas a vantagem de não ter praticamente nenhum vício físico. Acredito que o movimento sempre esteve muito presente. Sou de uma família silenciosa. A gente aprendia em casa a ler os movimentos, a energia e o silêncio faziam parte da comunicação. Possivelmente por isso tenho essa atração pelo movimento. A partir de 1972, com 21 anos, me dediquei completamente a isso. Por que fazer dança a essa altura? Porque essa sempre foi a minha forma de expressão, uma maneira de observar a vida. Nunca fiz grandes esforços para me aproximar da dança. Sempre fui levado por amigos, mas a aproximação e a primeira experiência física em uma sala de ensaios fizeram com que abandonasse tudo e me dedicasse ao mundo da dança com a noção e com a sensação de estar descobrindo, até hoje, uma parte muito importante que tinha que vir a descobrir. Hoje em dia para mim um bailarino ou uma bailarina na ponta dos pés me resulta muito mais espontâneo e natural que qualquer pessoa que anda na rua ou está dentro de um shopping, por exemplo. E não é viagem. Nesse sentido, o movimento é uma paixão muito interessante. Isso inclui todos os movimentos, as danças folclóricas, as danças de rua, tudo.

Adaptação da opereta 'La Belle Hélène', do compositor Jacques Offenbach, estreou em novembro e percorre o interior paulista em 2018

Foto: Cultura SP/ Divulgação

Adaptação da opereta ‘La Belle Hélène’, do compositor Jacques Offenbach, estreou em novembro e percorre o interior paulista em 2018

Foto: Cultura SP/ Divulgação

EC – Por que a ideia do movimento é tão importante para a dança?
Arrieta – Porque é a primeira forma de expressão do ser humano. Quando nascemos, para dar o primeiro grito precisamos fazer expandir a caixa torácica para inflar os pulmões e chorar. Nossos primeiros impulsos de vida são os movimentos, nos mexemos dentro da barriga da mãe, e essa é a nossa grande capacidade de comunicação. São códigos de comunicação que pertencem a todos os seres humanos, todos temos a capacidade de nos expressar através do corpo e de ler os movimentos, a energia, a forma e tudo que eles projetam. É um bem comum e um patrimônio de domínio público o movimento. Às vezes as pessoas pensam que é simplesmente uma questão de ‘ah é um numerozinho no qual os bailarinos pulam, giram…’. É, a princípio é isso. Mas a dança, ou seja, o movimento é possivelmente a única forma de comunicação plena, que não te deixa mentir. Quando estamos namorando, não fechamos os olhos para sentir os movimentos de uma maneira mais verdadeira?

EC – Sendo uma linguagem universal, por que a dança não atrai as massas?
Arrieta – A dificuldade de popularizar a dança como espetáculo se deve a vários motivos, primeiro porque esse é um bem tão próximo e tão disponível, a gente está o tempo inteiro com ele e não precisa de nenhum elemento intermediário, que nem o percebe. E hoje em dia todo mundo quer ter uma explicação prévia, entender tudo o tempo todo. Porque a dança se entende e se curte com o próprio corpo e não com o intelecto, que bloqueia os centros de percepção e a gente perde essa capacidade de perceber através de nosso corpo a energia em movimento das outras pessoas, das coisas, da natureza, do mundo. Talvez para muita gente a dança não faça sentido porque estamos viciados nas percepções intelectuais. Essa intelectualização acontece na própria dança. Quando uma pessoa faz um teste para entrar numa companhia, antes de pedirem para ela dançar e mostrar suas capacidades, primeiro tem que preencher um monte de fichas e formulários, mostrar diplomas e apresentar papéis. Como se esse exame intelectual fosse necessário. Não importa que o jogador de futebol não fala direito, ele está ali para jogar bola. Não me interessa vê-lo falar, eu quero ver ele jogar. Acredito que muita gente não assiste dança porque pensa que tem que ter uma preparação especial. A preparação já existe desde que nascemos. Precisamos nos entregar ao ato de perceber a dança como nos entregamos nas relações afetivas, sem discutir a relação. Se não, não rola.

EC – Como foi o primeiro contato com a dança?
Arrieta – Comecei a vida profissional com 15 anos, estudava de manhã e à tarde era office-boy de terno, gravata e penteado de gume, em uma exportadora de cereais. Sempre tive senso de organização. Em três meses me promoveram a um cargo de chefia. Em outra cerealista, a Lever, trabalhei por hora, terceirizado, na implantação dos primeiros computadores, em salas imensas e que só faziam somar um mais um, cartões perfurados. Uma tarefa burocrática que desempenhei com desenvoltura, daí me encaminharam à gerência para desenvolver minhas potencialidades. Justo quando ia bem no emprego, um amigo me avisou que tinham aberto inscrições para estudar no Balé Contemporâneo da Cidade de Buenos Aires. Nunca tinha me passado pela cabeça, mas eu tinha visto alguns espetáculos da companhia de Oscar Araiz, um coreógrafo muito importante na Argentina e também no Brasil. Fui lá, passei no teste, meu amigo não passou. As aulas eram às 3 da tarde. Larguei o emprego. Fui estudar balé com essa companhia maravilhosa. Era uma época em que havia poucos bailarinos na América Latina. Quando um bailarino tinha um pouco de jeito já contratavam. Se fosse alto, já era meio solista, e se ainda soubesse o que é esquerda e direita, já estava credenciado para ser primeiro bailarino (risos).

EC – Enfrentou resistências ou sofreu algum preconceito?
Arrieta – Afortunadamente, na minha casa não tive nenhuma resistência ou preconceito. Não recebi de parte dos meus pais grandes apoios, mas também nenhuma negativa. Minha mãe me lembrou de que eu já tinha abandonado duas faculdades e meu pai simplesmente falou que se era o que eu queria fazer que me dedicasse a isso. O preconceito é de toda uma sociedade, de uma educação de séculos, não é só aqui do Brasil, é da Argentina, do mundo, com maior ou menor grau. Desde que nasci me acostumei a falar a língua permitida e a calar a vedada. O homem não consegue lidar com o desconhecido, especialmente se o desconhecido mora dentro dele mesmo. Discriminação por ser estrangeiro e agora por velho.

Espetáculo solo 'Tango aDeus', de 2011: “aos 66 anos, sou uma das raridades que ainda dançam e gosto de dançar. É o melhor que posso oferecer”

Foto: João Milet Meirelles/ Divulgação

Espetáculo solo ‘Tango aDeus’, de 2011: “aos 66 anos, sou uma das raridades que ainda dançam e gosto de dançar. É o melhor que posso oferecer”

Foto: João Milet Meirelles/ Divulgação

EC – Por que a opção pelo Brasil?
Arrieta – Não foi uma escolha minha. Marilena Ansaldi, uma importante atriz e bailarina aqui de São Paulo, naquela época trabalhando junto com o Balé Stagium, foi incumbida de ir a Buenos Aires procurar bailarinos experientes ou que estivessem em início de carreira para completar o grupo. Ela, que é minha madrinha e a culpada de eu estar aqui, se apresentou, achei interessante, eu tinha acabado de assistir ao Stagium em Buenos Aires e havia no repertório trabalhos de Oscar Araes, que era uma referência, como a sua escola, na qual eu tinha começado. Minha formação é brasileira. Aqui que eu desenvolvi e continuo desenvolvendo meus conhecimentos de dança como intérprete, como professor, como coreógrafo e como diretor de dança. A minha influência é de tudo que o Brasil tem, desde a dança acadêmica desde as populares até as folclóricas e por algum motivo que desconheço, as coincidências, nas quais nunca acredito, fizeram com que nos primeiros dias que eu cheguei ao Brasil eu praticamente conheci todas as pessoas de dança, porque elas estavam presentes nos ensaios nos lugares onde eu fui e são as pessoas que ainda conheço hoje e que elas também ainda lembram de mim quando eu cheguei imberbe, inexperiente e falando pior português do que hoje (risos).

EC – Esse cenário mudou?
Arrieta – Penso que mudou muito a relação com a dança. O Brasil nesse momento tem muitos bailarinos, é exportador de talentos, tem cidades que se dedicam inteiramente a fabricação de artigos para dança. Isso mostra que existe um crescimento, assim como a quantidade de festivais de dança no país. Acredito que a disciplina física que a dança impõe é um dos motivos para esse crescimento, pois o apoio material das instituições oficiais é tímido, é esporádico, inconstante e má relacionada com interesses alheios à arte.

LUIS ARRIETA chegou ao Brasil em 1974, a convite da atriz e bailarina Marilena Ansaldi, para dançar no Ballet Stagium – São Paulo e nunca mais foi embora. Nessas quatro décadas e meia, produziu e protagonizou mais de 150 coreografias para as principais companhias de dança brasileiras e da Argentina, Cuba, Estados Unidos e Europa. Foi diretor artístico do Balé da Cidade de São Paulo, atuou no Balé Teatro Castro Alves, de Salvador, e foi um dos fundadores e diretor do Elo Ballet de Câmara Contemporâneo, de Belo Horizonte. Foi agraciado com diversos prêmios de dança, entre os quais, da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) 1977, 1979, 1980 e 1988; Prêmio Governador do Estado de São Paulo 1978 e 1979; Prêmio Conselho Estadual de Cultura de Salvador 1985; Bolsa Vitae de Artes para Criação Coreográfica e Pesquisa 1991; 2º Prêmio Instituto Brasileiro Arte e Cultura (IBAC) 2010 – Categoria Dança e, em 2017, com o 5º Prêmio Denilto Gomes – Categoria Trajetória na dança. Também recebeu diversos prêmios de Melhor Coreógrafo e Melhor Coreografia concedidos pelos mais importantes festivais de dança do país. Para mais informações sobre o artista, leia Luis Arrieta: poeta do movimento, de Roberto Pereira (Coleção Aplauso, Ed. Imprensa Oficial – SP (Imesp), 2010, 470p.). Em 2018, seu acervo será compilado para acesso público e das instituições.

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