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15/02/2018
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Os patos e o Brasil arcaico da Tuiuti

Foto: Reprodução/YouTube

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A letra do samba-enredo da Paraíso do Tuiuti não tem nenhuma referência ao golpe ou à manipulação dos brasileiros pelas forças que o articularam. Nem aos que usurparam o poder em nome do combate à corrupção, sendo eles mesmos corruptos impunes acusados de formação de quadrilha.

Não há tampouco uma palavra sequer sobre o presidente-vampiro e seu Quadrilhão. Nem sobre os patos da Avenida Paulista. Mas eles apareceram de surpresa na avenida, encaixados no tema da escola, para que a arte popular dissesse com síntese e clareza o que nem as esquerdas e a ciência política conseguiam.

Com o pretexto de que falaria da escravidão sem fim, a escola expôs o Brasil arcaico mobilizado contra a democracia e as conquistas sociais. A Tuiuti driblou os que poderiam boicotá-la (a Globo, como protagonista da festa?) e escondeu parte do seu roteiro para mostrar ao mundo o que se passa aqui. O golpe, disse a Tuiuti, foi uma ação montada pelas forças que o sociólogo Jessé Souza define como a elite do atraso.

Os chefes golpistas e seus subalternos não são personagens de uma conspiração internacional, a desculpa recorrente para o que de tempos em tempos acontece no Brasil. O golpe foi aplicado pelos que mantêm o poder econômico e político e os modos e os costumes de dominação que os brancos preservam e aperfeiçoam desde que chegaram aqui.

O golpe saiu da imaginação e da ação de coronéis do Nordeste e da Fiesp, de capitães do mato do Sul, de tucanos do Sudeste, de desmatadores do Cerrado, de deputados protegidos pelo discurso religioso, da imprensa e das máfias nem sempre ocultas do Judiciário. Não saiu da cabeça de George Soros ou de agentes da CIA em Washington ou de financistas em Nova York. O golpe é produto nacional com temperos de fora.

Faltou na Tuiuti, para ser completa, a representação da carnavalização da Justiça, com um Sergio Moro impoluto e seletivo no alto de um carro com outros togados, com o Supremo, com Jucá e com tudo.

Mas eles estavam lá nas mãos nem sempre invisíveis que manipulam os patos – um simbolismo do golpe que pela primeira vez foi sequestrado pelo povo para ser devolvido em seu real significado aos que o inventaram.

Os patos e o Brasil arcaico da Tuiuti

Foto: Reprodução/YouTube

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O Carnaval também sepultou (inclusive nos blocos) os últimos símbolos midiáticos da direita, que desfilavam em fantasias e bonecos a reboque da manipulação dos paneleiros. Os foliões, que já haviam dado adeus ao japonês corrupto da Federal, abandonaram finalmente o juiz de Curitiba e ignoraram a ‘mitologia’ criada em torno de Bolsonaro.

A direita desamparada, que não tem mais onde se agarrar, desistiu dos farsantes do moralismo da Lava-Jato. A classe média das passeatas, bem acomodada nos camarotes da Sapucaí, deve ter se perguntado: por que nossos feitos e nossos ódios se transformaram em caricaturas grotescas nas mãos dos carnavalescos, se nós somos até agora os vencedores? A Tuiuti jogou o pato no colo dos que devem embalá-lo.

Se a Beija-Flor veio para repetir o discurso da Lava-Jato de que a causa das nossas misérias é a corrupção dos homens públicos, a Tuiuti fez o contraponto que ilumina: a culpa, estúpidos, é do escravismo privado dos patrocinadores do pato amarelo.

E agora? Que poder terá a arte de fazer com que o país finalmente reaja à letargia? O morro que grita contra o cativeiro social será capaz de verbalizar politicamente, fora do Carnaval, o que contou no Sambódromo? Ou negros e pobres do Morro do Tuiuti retomam agora suas vidas de submissão aos escravistas do século 21 e às crueldades do vampiro-do-jaburu e do bispo Crivella?

Entramos agora na depressão da Quaresma, à espera da anunciada prisão de Lula, da retomada do debate sobre o auxílio-moradia dos bacanas do Judiciário, da posse da ex-futura ministra do Trabalho que explora trabalhadores e de uma eleição que ninguém sabe se sai?

Estes são os dois últimos versos do samba-enredo que mexe com quem estava bem sentado desde o golpe: Meu Tuiuti, o quilombo da favela é sentinela da libertação.

Quem sabe estejamos todos dependendo do grito do morro para que a classe média se liberte da fantasia do pato amarelo e das togas justiceiras.

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