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08/03/2018
MOVIMENTO

Desde as primeiras horas da manhã, caravanas chegaram à capital gaúcha para as manifestações do Dia Internacional da Mulher
Por Cristina Ávila

Caminhada reuniu mulheres do campo e da cidade

Foto: Igor Sperotto

Muitas crianças estiveram à frente das colunas de mulheres do campo e da cidade que chegaram em caminhada ao centro da capital gaúcha na manhã desta quinta-feira, 8 de março. Na marcha alegre e colorida que marcou o Dia Internacional da Mulher, as meninas representaram uma das reivindicações populares do Rio Grande do Sul: o grito pela falta de transporte para o ano letivo, que tem deixado muitos estudantes sem escola em acampamentos e assentamentos de agricultores familiares em diversos municípios.

Neste 8 de março, as principais palavras de ordem foram pela democracia, contra o feminicídio, contra a violência, contra as reformas que vêm sendo implementadas pelo governo federal e contra políticas do governo do estado que afetam os serviços públicos. “Saímos às ruas, integrando as manifestações de 8 de março em todo o país, mas é bom que se lembre que as mulheres nunca saíram das ruas. São as grandes protagonistas da luta contra o golpe”, afirma Vitalina Gonçalves, secretária de Administração e Finanças da Central Única dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (CUT/RS). Ela citou que o governo do estado e prefeitura de Porto Alegre seguem a mesma linha política do governo federal, com desmonte de estrutura estatais “e três anos de frequentes atrasos de salários de servidores públicos, enquanto prestadores de serviços privados chegam a receber a cada 20 dias”.

Para denunciar os feminicídios, mortes identificadas como crime de ódio motivados pela condição de gênero, as mulheres deitaram no asfalto e suas silhuetas foram pintadas com giz no asfalto

Para denunciar os feminicídios, mortes identificadas como crime de ódio motivados pela condição de gênero, as mulheres deitaram no asfalto e suas silhuetas foram pintadas com giz no asfalto

Foto: Igor Sperotto

O favorecimento de empresas privadas por governos também foi uma das palavras de ordem puxadas pelo movimento nacional de catadoras de materiais recicláveis, que tem como uma das lideranças no Rio Grande do Sul Maria Tugira, uma lutadora com mais de 30 anos de história que, em Uruguaiana, contribuiu para que a Associação de Catadoras e Catadores Amigos da Natureza (Aclan) fosse contratada pela Prefeitura para o desenvolvimento de ações da Coleta Seletiva Solidária municipal. “Lutamos por trabalho digno e remunerado. As mulheres catadoras sofrem nos galpões por condições desfavoráveis de trabalho”.

Segundo ela, de todos os municípios gaúchos, em “apenas meia dúzia” deles os catadores e catadoras são beneficiados por políticas públicas. “No restante, benefícios econômicos milionários da coleta de lixo são acumulados por grandes empresários”. As profissionais da reciclagem reclamam que entre suas cooperativas há algumas com atrasos de até três meses de recursos públicos pela coleta seletiva.

Fechamento de escolas

Silvia: A criançada veio para chamar atenção para a falta de transporte e o fechamento de escolas em acampamentos e assentamentos do MST

Foto: Igor Sperotto

Mesmo com a pauta pesada de reivindicações, a marcha das mulheres chegou à frente da Prefeitura de Porto Alegre com bandeiras coloridas de partidos políticos e movimentos sociais. “É sempre muito emocionante, né?”, exclamou a fotógrafa Suzane Buchweitv, que cobria o movimento para a Igreja Luterana, em meio a uma dezena de fotógrafos dos mais variados veículos de comunicação, que disputavam imagens de mães e bebês participantes da marcha. Elas integravam instituições que fazem parte da Via Campesina, de todas as regiões do Rio Grande do Sul. “A criançada veio para chamar atenção para a falta de transporte e o fechamento de escolas”, relatou a porta-voz da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no estado, Sílvia Reis Marques. Ela disse que somente em São Gabriel cerca de 500 crianças de acampamentos e assentamentos estão sem escola por falta de transporte. Em Santana do Livramento, mulheres ocuparam a prefeitura para reivindicar transporte para as crianças irem à aula.

Vários eventos no estado integraram a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra. Na terça feira, 7, elas realizaram uma conferência com a ex-presidente Dilma Rousseff, no Assentamento Capela, em Nova Santa Rita, município da região metropolitana de Porto Alegre. No mesmo dia, na capital, mulheres de diversas organizações do movimento social ocuparam a Superintendência Regional da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), no Bairro Floresta. Elas reivindicaram a restauração do orçamento do governo federal para a reforma agrária, que teve cortes de programas que chegaram a 99% em todo o país. Por exemplo, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que perdeu R$ 10 milhões no Rio Grande do Sul, com impactos diretos na agricultura familiar.

A macha na capital nesta quinta-feira encerrou em frente ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), em protesto contra a criminalização dos movimentos sociais, a seletividade da Justiça brasileira e o auxílio-moradia para juízes.

Cartazes nas mãos das pessoas e vozes do carro de som que acompanhou a marcha chamaram a atenção para os números da violência no país. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 foram 4.473 homicídios dolosos contra mulheres, o que representou um aumento de 6,5% em relação a 2016. Isso significa que a cada duas horas uma mulher é assassinada no Brasil. Desses, 946 foram feminicídios, mortes identificadas como crime de ódio motivados pela condição de gênero. Para marcar a violência, as mulheres deitaram no asfalto em frente à Prefeitura de Porto Alegre, e foram pintadas em branco as linhas dos limites dos corpos no chão.

 

 

 

 

 

 

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