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20/04/2018
POLÍTICA

Bispos criticam candidatos comprometidos com reformas e foro privilegiado, defendem a democracia e denunciam execuções de lideranças
Por Marcelo Menna Barreto
“Ao abdicarem da ética e da busca do bem comum, muitos agentes públicos e privados tornaram-se protagonistas de um cenário desolador”, aponta documento aprovado ao final da Assembleia, que reuniu bispos de todo o país em São Paulo

Foto: CRB Nacional/ Divulgação

“Ao abdicarem da ética e da busca do bem comum, muitos agentes públicos e privados tornaram-se protagonistas de um cenário desolador”, aponta documento aprovado ao final da Assembleia, que reuniu bispos de todo o país em São Paulo

Foto: CRB Nacional/ Divulgação

“Não merecem ser eleitos ou reeleitos candidatos que se rendem a uma economia que coloca o lucro acima de tudo e não assumem o bem comum como sua meta, nem os que propõem e defendem reformas que atentam contra a vida dos pobres e sua dignidade. São igualmente reprováveis candidaturas motivadas pela busca do foro privilegiado e outras vantagens”, frisa um dos documentos mais aguardados da 56ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): a mensagem sobre as eleições de 2018, divulgada na tarde de quinta-feira, 19 de abril, pela presidência do evento. “Ao abdicarem da ética e da busca do bem comum, muitos agentes públicos e privados tornaram-se protagonistas de um cenário desolador”, apontam os bispos brasileiros no documento.

A leitura do texto aprovado pela assembleia com o título Eleições 2018: compromisso e esperança  foi realizada pelo vice-presidente da CNBB, Dom Murilo Krieger, arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil no Santuário Nacional de Aparecida. Ele estava acompanhado do arcebispo de Brasília e presidente da entidade, Cardeal Dom Sergio da Rocha, e do arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler, responsável pelo tema principal tratado na assembleia: a formação do clero no Brasil. Outro documento também foi lido na ocasião: Mensagem ao Povo de Deus, destinado especificamente ao meio eclesial.

Assassinatos de lideranças

As mensagens dos bispos, no entanto, não ficaram restritas aos dois documentos assinados e lidos pela presidência da CNBB. No dia 16, na tradicional missa das manhãs que antecedeu o início dos trabalhos da assembleia, Dom Severino Clasen, bispo de Caçador (SC) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato, em sua homilia afirmou que tem aumentado o assassinato de lideranças nas comunidades periféricas, crimes que não são notícias ou que são transformados em calúnias e difamações para minimizar o interesse público.

“São pobres que morrem”, enfatiza o religioso, destacando que é preciso identificar esses líderes assassinados e dar visibilidade às suas causas para que possam “encorajar todas as pessoas a superar a onda de ódio, de perseguição, de mortes brutas financiadas pela força do capital e entidades secretas que matam, destroem vidas e a dignidade dos filhos de Deus”.

Imigrantes e refugiados

Krieger, vice-presidente da CNBB, fez a leitura do documento que aponta o país mergulhado em “grave instabilidade politica, econômica e social”

Foto: CNBB/ Divulgação

Krieger, vice-presidente da CNBB, fez a leitura do documento que aponta o país mergulhado em “grave instabilidade politica, econômica e social”

Foto: CNBB/ Divulgação

Com o tema A atuação da Igreja no Brasil sobre a situação dos imigrantes venezuelanos que buscam refúgio no país, o bispo de Roraima, Dom Mário Antônio, informou que a presença de imigrantes vindos da Venezuela é uma realidade constante no estado desde 2015, mas no início deste ano o fluxo imigratório se intensificou.“A vinda dos migrantes é um direito. O imigrante não é um invasor, mas um novo habitante em nossas cidades, em nosso estado e em nossa nação”, destacou, acrescentando que “essas pessoas deixam sua terra em busca de uma vida melhor”.

Apesar de a igreja estar mantendo cinco abrigos, com cerca de 800 pessoas em cada um, existe a necessidade de um esforço maior “para abrigar a população que atualmente está nas praças e ruas da capital”, alertou, reafirmando que a urgência da construção de abrigos se deve também à chegada da temporada de chuvas na localidade. Diante dessa situação, o plenário da Assembleia Geral aprovou, por unanimidade, o destino de 40% dos recursos do Fundo Nacional de Solidariedade (FNS) para a Diocese de Roraima. O objetivo é fazer com que o apoio aos venezuelanos se prolongue o máximo possível. O Fundo é resultado da coleta da Campanha da Fraternidade realizada todos os anos no final da Quaresma.

Os bispos ainda manifestaram sua preocupação com a realidade na Síria por ocasião da chegada dos inspetores da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opac). Em entrevista ao Vatican News (jornal do sistema de comunicações da Santa Sé), Dom Edgard Madi, arcebispo maronita no Brasil, denunciou: “Mais do que uma guerra civil, mais que a ideia de se derrubar um governo, o objetivo é o de vender armas”. Nascido em Beit Mery, histórica cidade a 16 km de Beirute, o bispo destacou que esse também é o entendimento do Papa Francisco. “A guerra é sempre feia. O ataque é para mostrar como as armas funcionam e quem está pagando isso é o povo que derrama seu sangue”, pontuou.

Carta ao Papa Francisco, Sínodo da Juventude e ratificações

No segundo dia da assembleia geral, os bispos católicos tornaram pública uma carta enviada ao Papa Francisco por ocasião do seu encontro em Aparecida. O documento, além de expor ao pontífice as saudações do episcopado nacional e as matérias desenvolvidas na 56ª Assembleia, ressaltou que o Brasil está passando por um momento de “grave instabilidade politica, econômica e social”. Aprovada em plenário, a carta foi redigida por uma comissão especialmente eleita e representou a opinião de todos os bispos presentes em Aparecida.

Em seu encontro, os bispos ainda escolheram os representantes titulares e suplentes do episcopado brasileiro para a Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos que se realizará entre os dias 3 e 28 de outubro no Vaticano, com o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Os nomes dos eleitos só poderão ser divulgados após a ratificação da eleição por parte do Papa Francisco. Da mesma forma, as alterações do Estatuto da CNBB, também realizada na assembleia, só se tornarão públicas após a ratificação da Santa Sé.

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