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12/06/2018
POLÍTICA

Preso desde 2016, o curdo Selahattin Demirtas representa a terceira força política no país e ameaça a maioria absoluta do atual presidente turco
Por Marcelo Menna Barreto
Erdogan tenta por todos os meios se manter no poder

Foto: Governo da Turquia/ Divulgação

Erdogan tenta por todos os meios se manter no poder

Foto: Governo da Turquia/ Divulgação

Praticamente às vésperas das eleições na Turquia – que acontecem no dia 24 de junho – o presidente e candidato a reeleição Recep Tayyip Erdogan fez um apelo para que os tribunais “julguem” rapidamente seu rival preso, Selahattin Demirtas, que está fazendo campanha para as eleições presidenciais em sua cela na prisão de Edirne. Detido preventivamente há 19 meses, Demirtas é a maior liderança do HDP (Partido Democrático dos Povos) principal partido pró-curdo da Turquia. A comunidade curda manifesta preocupação com uma possível ameaça velada de morte ao seu principal líder e, nas redes sociais, retuitou com intensidade a mensagem de Demirtas, publicada por seus advogados em seu Twitter oficial.

Em palanque de campanha na província de Kocaeli, no noroeste da Turquia, Erdogan afirmou no último domingo, 10, sobre Demirtas: “este homem está preso no momento. O Judiciário deve tomar uma decisão por ele o mais rápido possível”. Demirtas está detido sob alegação de vínculos como o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), que é considerado uma organização terrorista pela Turquia, União Europeia e Estados Unidos.

Quando Erdogan enfatizou em seu discurso que “devemos perguntar às famílias das vítimas que sentença eles querem sobre esse homem que causou a morte de tantas pessoas”, o presidente turco ouviu os presentes gritarem “pena de morte”. Em resposta, Erdogan disse que se o parlamento turco apresentar essa possibilidade, ele a aprovaria imediatamente. A pena de morte na Turquia foi abolida pelo seu parlamento em agosto de 2002, em uma tentativa de aproximar o país das normas da União Europeia (UE).

Líder da oposição curda, Demirtas representa 15 milhões de turcos e desafia o ditador Erdogan

Foto: HDP/ Divulgação

Líder da oposição curda, Demirtas representa 15 milhões de turcos e desafia Erdogan

Foto: HDP/ Divulgação

REAÇÃO – Na manhã de segunda-feira, 11, Demirtas manifestou-se de dentro da prisão. Seus advogados publicaram em sua conta oficial no Twitter (@hdpdemirtas) que ele considerou uma “calúnia desprezível” o discurso de Erdogan. Em sua reação, o político de origem curda ainda afirmou através de seus advogados na rede social: “eu não vou dar um passo atrás”.

O candidato de oposição, que está preso, reagiu pelo twitter aos ataques

Imagem: Reprodução

O candidato de oposição, que está preso, reagiu pelo twitter aos ataques

Imagem: Reprodução

Preso desde novembro de 2016, na série de expurgos promovidos pelo governo turco após a tentativa de golpe de Estado frustrado, em julho do mesmo ano, e que atingiu fortemente os setores pró-curdos, Demirtas ainda ironizou o presidente: “Você vê o que um candidato presidencial promete ao povo da Turquia em 2018?”, assinalou. “Erdogan diz que ele vai me executar se ele for eleito. Eu sacrificaria minha vida mil vezes pelo nosso povo e não retrocederia”, concluiu.

Para o membro da Comissão de Relações Exteriores do HDP, Evren Cevik, o presidente da Turquia “é muito agressivo contra o senhor Demirtas e o HDP”. Segundo ele, a razão é que o HDP é a única frente política que pode impedir a maioria do AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento) na montagem do governo turco. “É por isso que Erdogan nos ataca desde 7 de junho de 2015”, disse Cevik apontando que as eleições do próximo dia 24 “moldarão e reorganizarão o caminho para o futuro do país”.

Campanha pelas redes sociais

A antecipação das eleições presidenciais na Turquia em um ano foi proposta do atual presidente Erdogan. Selattin Demirtas, advogado de 45 anos ligado à causa dos direitos humanos, foi lançado em 2 de maio candidato à presidência da Turquia pelo HDP, mesmo estando encarcerado preventivamente. Apelidado de “Obama curdo” por sua liderança carismática, Demirtas tem realizado sua campanha, conforme afirmou através de seus porta-vozes “de boca em boca, indo ao encontro dos eleitores e tentando organizar comícios, sempre que possível”. Segundo informou, também busca usar as redes sociais ao máximo, pois com raras exceções, o seu partido tem acesso à mídia. No dia 29 de maio, o Supremo Conselho Eleitoral da Turquia (YSK) recusou o pedido de Demirtas para participar, por telefone, de um programa da FOX TV que dá voz a candidatos à presidência da Turquia. O YSK afirmou que o Ministério da Justiça é a autoridade responsável por essa decisão, uma vez que o candidato está sob detenção do Estado.

“No passado, já conseguimos superar essas dificuldades e tenho certeza de que teremos sucesso novamente”, chegou a dizer o candidato em uma rara e curta entrevista na prisão. Demirtas concorreu em 2014 à presidência contra Erdogan. Na ocasião, chegou perto de 10% da preferência do eleitorado. Sob sua votação e liderança, o HDP acabou ampliando a sua base eleitoral para além da comunidade curda da Turquia, cerca de 15 milhões de pessoas. Com isso, o HDP entrou no parlamento turco e acabou se consolidando como a terceira força política no país, o que ajudou a tirar a maioria absoluta do partido de Erdogan, o AKP. Desde então, Erdogan multiplicou os ataques pessoais e as acusações de vínculos com o PKK contra Demirtas e o HDP, que diz não ser “a ala política” do PKK, e acusa Erdogan de querer instaurar um regime ditatorial.

Para Cevik, do HDP, partido de oposição que confronta o atual presidente, as eleições “moldarão e reorganizarão o caminho para o futuro do país”

Foto: Acervo Pessoal

Para Cevik, do HDP, partido de oposição que confronta o atual presidente, as eleições “moldarão e reorganizarão o caminho para o futuro do país”

Foto: Acervo Pessoal

Golpe e estado de emergência

A Turquia declarou estado de emergência logo após a tentativa de golpe de Estado em julho de 2016. Vários países europeus e organizações de defesa dos direitos humanos acusam as autoridades do país de perseguir os opositores e não apenas os supostos golpistas. Há, inclusive, intelectuais e lideranças políticas que acreditam que o golpe na realidade foi articulado pelo próprio presidente Erdogan, como uma forma de retaliar seus opositores.

Em abril passado, as autoridades turcas decidiram prolongar pela sétima vez consecutiva em três meses o estado de emergência. A decisão foi tomada em reunião do Conselho de Segurança Nacional em Ancara sob a presidência de Erdogan. Em um informe publicado logo após o anúncio da decisão, a Comissão Europeia pediu que o país suspendesse o estado de emergência “sem demora”.

Antes do pronunciamento da Comissão Europeia, em março, a Organizações das Nações Unidas (ONU) também solicitou à Turquia o fim do estado de emergência e declarou que a medida acabou gerando violações generalizadas de direitos humanos, torturas e interferência no Judiciário, o que levou a prisão de 160 mil pessoas e à demissão de um número similar de servidores públicos. O ministro das Relações Exteriores turco, Mevlut Cavusoglu, reagiu, alegando que os argumentos da ONU seriam baseados em alegações falsas e estariam a serviço da “propaganda de organizações terroristas”.

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