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05/06/2018
ENTREVISTA | ROBERTO VALENT

Por Gilson Camargo
Bairro de Al-Shejaeiya, a leste da Cidade de Gaza, destruído por mísseis israelenses nos bombardeios de agosto de 2014, permanece em ruínas e sem serviços básicos à população

Foto: Mohammed Saber/ Anistia Internacional

Bairro de Al-Shejaeiya, a leste da Cidade de Gaza, destruído por mísseis israelenses nos bombardeios de agosto de 2014, permanece em ruínas e sem serviços básicos à população

Foto: Mohammed Saber/ Anistia Internacional

Após a mais sangrenta ofensiva israelense desde os bombardeios de 2014, os palestinos começaram o Ramadã de 2018, em maio, enterrando seus mortos. Foram nove dias de ataques de franco-atiradores israelenses posicionados ao longo do perímetro de Israel com a Faixa de Gaza, que agiram em represália às manifestações da Grande Marcha de Retorno. A manifestação histórica contra o exílio forçado de centenas de milhares de palestinos ocorre desde o dia da Nakba, 15 de maio de 1948. A data, que assinala a criação do Estado de Israel, foi escolhida em 2018 pelo presidente norte-americano Donald Trump para a transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém, demarcando o reconhecimento da cidade como capital israelense, contra as resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU). Após os ataques, o representante do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD), Roberto Valent, explicou que as prioridades da organização na região são o fortalecimento dos sistemas de saúde para salvar as vidas dos feridos, bem como garantir a segurança dos habitantes palestinos diante de possíveis violações dos direitos humanos por parte de Israel. De nacionalidade italiana, Valent foi nomeado em 2015 para a representação especial do Programa de Assistência ao Povo Palestino, da ONU. Antes, atuou como coordenador residente para El Salvador, Belize, Congo, Sudão e Ilhas Comores. Segundo ele, após 11 anos de bloqueio, sob bombardeios constantes e com sua rede de serviços básicos aniquilada, a Faixa de Gaza será um território inviável até 2020. “A infraestrutura de Gaza está à beira do colapso”, avalia o diplomata nesta entrevista exclusiva ao Extra Classe.

Valent: "A infraestrutura de Gaza está à beira do colapso total, particularmente suas redes de eletricidade e água, bem como seu sistema de saúde. Quase 11 anos de bloqueio, uma crise energética crônica e a divisão interna aniquilaram os serviços essenciais"

Foto: Pnud/ONU Divulgação

Valent: “A infraestrutura de Gaza está à beira do colapso total, particularmente suas redes de eletricidade e água, bem como seu sistema de saúde. Quase 11 anos de bloqueio, uma crise energética crônica e a divisão interna aniquilaram os serviços essenciais”

Foto: Pnud/ONU Divulgação

Extra Classe – Em fevereiro deste ano, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) já alertava sobre a crise de eletricidade em Gaza e a iminência de um colapso nos serviços médicos para a população. Após os ataques de maio, como ficaram os serviços hospitalares, de abastecimento de água e de saneamento?
Roberto Valent – A infraestrutura de Gaza está à beira do colapso total, particularmente suas redes de eletricidade e água, bem como seu sistema de saúde. Quase 11 anos de bloqueio, uma crise energética crônica e a divisão interna deixaram os serviços essenciais em Gaza incapazes de funcionar. Após os eventos de maio, o setor da saúde está lutando para lidar com o fluxo massivo de vítimas e feridos. Números do Ministério da Saúde indicam que 63 palestinos foram mortos e 3.414 ficaram feridos entre 13 e 22 de maio de 2018. Os estoques de suprimentos médicos se esgotaram significativamente e o acesso a cuidados de saúde para pacientes não traumatizados está sendo comprometido. Segundo a OMS, 5,1 milhões de dólares são urgentemente necessários para cobrir necessidades de suprimentos médicos e equipes médicas de emergência. A longa crise de energia em Gaza resultou na redução de serviços, incluindo serviços de coleta de resíduos sólidos, bem como a operação de instalações de água e saneamento. Outras reduções no fornecimento de eletricidade causaram 22 horas de apagões em Gaza e mais de 95% das águas subterrâneas são consideradas contaminadas. Os hospitais estão consumindo provisões de combustível de emergência a taxas muito mais altas do que o normal. Por uma questão de urgência, existe uma necessidade vital de acelerar o apoio que terá um impacto imediato na melhoria do acesso à eletricidade, água, situação de saúde, meios de subsistência.

"Os programas do PNUD apoiam a resiliência da população palestina em Gaza para restaurar sua vida e melhorar seus meios de subsistência"

Foto: Shareef Sarhan/ ONU

“Os programas do PNUD apoiam a resiliência da população palestina em Gaza para restaurar sua vida e melhorar seus meios de subsistência”

Foto: Shareef Sarhan/ ONU

EC – Quais são as prioridades da ONU em Gaza?
Valent – Uma aceleração do processo de recuperação e reconstrução, o levantamento das restrições prevalecentes e uma solução para a divisão intrapalestina, para que o governo palestino possa assumir suas responsabilidades em Gaza, são uma obrigação. Mais famílias palestinas estão caindo na armadilha da pobreza, aumentando a insegurança alimentar e a dependência da ajuda e, portanto, é imperativo aliviar o sofrimento do povo, avançar em projetos urgentes de infraestrutura e desenvolvimento econômico, melhorar o acesso e o movimento e apoiar o processo de reconciliação. Três áreas de intervenção também foram identificadas para responder às necessidades urgentes decorrentes dos protestos em curso em Gaza: fornecer cuidados de saúde imediatos e salvadores; monitorar, verificar e documentar possíveis violações de proteção; e ampliação da provisão de saúde mental e apoio psicológico para pessoas feridas ou de outra forma afetadas. No médio a longo prazo, no entanto, devemos apoiar as atividades de emprego e recuperação econômica. Nos últimos anos, a resiliência dos habitantes de Gaza tem mostrado sinais de erosão substancial desta capacidade, em que a violência, a criminalidade e o uso de narcóticos aumentaram. Jovens e mulheres são os mais afetados e pagam o preço mais alto. As taxas de desemprego alcançaram níveis sem precedentes, especialmente entre os jovens, que excedem 60%. O PNUD, por exemplo, está tentando levantar recursos para oportunidades rápidas de emprego, incluindo a promoção de e-works, voluntariado juvenil, subsídios salariais e obras públicas intensivas em trabalho. Isso trará liquidez muito necessária para a região.

EC – Quais são as maiores dificuldades enfrentadas para a implementação de ações de desenvolvimento na região? Como resolver esses problemas?
Valent – A ONU já prevê que a faixa de Gaza se torne inviável até 2020 – daqui a dois anos. Sob condições políticas imutáveis, o futuro de Gaza e seus 2 milhões de habitantes é sombrio. Há um bloqueio incapacitante, falta de recursos financeiros para atender às necessidades de recuperação e tensões intrapalestinas que estão criando uma situação humanitária cada vez mais perigosa. Somos muito desafiados, por exemplo, por não sermos capazes de trazer rapidamente bens materiais – particularmente aqueles rotulados como “uso dual” (tecnologia de dupla utilização, tanto para fins humanitários quanto militares). Isso ocasionalmente impedia nossas ações de desenvolvimento. A superação dos desafios depende da resolução dos gargalos políticos que são a causa básica da crise de Gaza. O levantamento do bloqueio, capacitando o governo palestino a assumir suas responsabilidades em Gaza, acelerando a implementação do projeto no território e aumentando a ajuda, pode desempenhar um papel importante na melhoria dos meios de subsistência das pessoas e permitir que Gaza prospere e não apenas sobreviva.

"A população de Gaza, como todas as pessoas, simplesmente deseja uma vida digna, em que possa contribuir para criar e educar seus filhos, mover-se com liberdade e participar de outros direitos cívicos básicos que nos são proporcionados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos"

Foto: Pnud/ONU/ Divulgação

“A população de Gaza, como todas as pessoas, simplesmente deseja uma vida digna, em que possa contribuir para criar e educar seus filhos, mover-se com liberdade e participar de outros direitos cívicos básicos que nos são proporcionados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos”

Foto: Pnud/ONU/ Divulgação

EC – Quais são os programas humanitários e de desenvolvimento desenvolvidos pela ONU na região?
Valent – O Fundo Humanitário para o território palestino ocupado foi lançado em 24 de maio de 2018 com recursos na ordem de 3,9 milhões de dólares para atender às necessidades urgentes no território palestino ocupado (75% deles são destinados a Gaza). As Nações Unidas, juntamente com parceiros internacionais, estão se concentrando na implementação de projetos que tenham um impacto imediato na melhoria da eletricidade, água e situação de saúde em Gaza com urgência. Isso, além de projetos que abordam a proteção infantil, a saúde mental e os serviços psicossociais, bem como apoiam os sobreviventes da violência baseada no gênero. Os programas do PNUD apoiam a resiliência da população palestina em Gaza para restaurar sua vida e melhorar seus meios de subsistência.

EC – Como se dá a assistência? Quais são as prioridades?
Valent – Nosso apoio tem como alvo as famílias palestinas não refugiadas por meio de emprego emergencial e assistência em dinheiro, construção de infraestrutura essencial e moradia para as pessoas que perderam suas casas durante as hostilidades de 2014, empoderamento econômico para mulheres e jovens, assistência jurídica e desenvolvimento de capacidade para harmonização institucional. O apoio do PNUD ao setor de educação através do Programa Direito ao Ensino até agora permitiu que 119 mil pessoas tivessem educação de qualidade através da construção e reabilitação de 46 escolas e institutos de educação superior em Gaza, além da construção da primeira Escola Amiga da Criança de Gaza, projetada em cooperação com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O PNUD também concedeu 970 bolsas de estudo (513 para mulheres) através do seu Programa de Futuro Dinâmico Al Fakhoora em Gaza. O PNUD continua a apoiar atividades de capacitação econômica para famílias pobres por meio de subsídios iniciais e treinamento profissional para jovens recém-formados, além de seu apoio ao setor privado por meio da construção do Estado industrial de Gaza. O PNUD está apoiando o acesso melhorado à água potável e saneamento para 200 mil pessoas através da reabilitação de redes danificadas de esgoto e água em toda a Faixa de Gaza. Também estamos construindo uma Usina de Tratamento de Água e Resíduos de Khan Younis (cidade situada no Sul da Faixa de Gaza), no valor de 58 milhões de dólares, que atenderá a aproximadamente 217 mil residentes em sua primeira fase de operação em 2020.

Crianças da Escola de Meninas Elementares de Jabalia, cidade que mantém campo de refugiados a quatro quilômetros de Gaza e que foi bombardeada em 2009

Foto: Eskinder Debebe/ONU

Crianças da Escola de Meninas Elementares de Jabalia, cidade que mantém campo de refugiados a quatro quilômetros de Gaza e que foi bombardeada em 2009

Foto: Eskinder Debebe/ONU

EC – Existe alguma perspectiva de retomar a normalidade?
Valent – Conforme observado, o ano de 2020 pode ser pouco viável. A superação dos desafios depende da resolução dos gargalos políticos, que são a causa da crise de Gaza. As atuais condições catastróficas exigem desesperadamente uma ação sustentada. A aceleração do processo de reconstrução proporcionará à população de Gaza a oportunidade de investir em suas próprias vidas e no desenvolvimento sustentável de longo prazo de sua comunidade. Há certamente uma necessidade de injetar a esperança de que o povo de Gaza comece a criar uma visão para o seu futuro e para as gerações vindouras. Se a situação se inverter, a população de Gaza poderá viver uma vida saudável e produtiva em paz e segurança. Os setores produtivos serão revigorados, sem restrições de pessoas e bens, reconstruindo melhor a cidade e tendo um porto que leve as pessoas de volta à região. Eu digo isso com grande determinação. A população de Gaza, como todas as pessoas, simplesmente deseja uma vida digna, em que possa contribuir para criar e educar seus filhos, mover-se com liberdade e participar de outros direitos cívicos básicos que nos são proporcionados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

EC – Neste cenário, como progredir na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na região?
Valent – O Estado da Palestina demonstrou seu compromisso de alcançar o desenvolvimento sustentável dentro do contexto de pessoas, prosperidade, planeta, paz e parcerias. A abordagem dependerá da reconstrução da resiliência da população e do fortalecimento econômico, tornando-se assim menos dependente da ajuda de Israel. A insegurança alimentar será reduzida porque a população terá acesso a terras agrícolas e à pesca. A reconstrução do setor privado de Gaza resultará em crescimento econômico, impulsionando o comércio internacional e as exportações, bem como um aumento no investimento estrangeiro, particularmente em turismo, construção e tecnologia da informação.

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