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09/07/2018
ENTREVISTA | JESSICA BENNETT

Por Marcelo Menna Barreto

Foto: Sharon Attia

Bennett: Feminista é alguém que acredita na igualdade entre os sexos; não que as mulheres sejam melhores que os homens, simplesmente iguais. Se você acredita nisso, então você é um feminista

Foto: Sharon Attia

Uma mulher sendo interrompida. Não, não estamos falando das tentativas da pré-candidata Manuela D’Ávila em expressar suas ideias recentemente no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo. Este fato recorrente na vida das mulheres é apenas um dos inúmeros motivos que levaram a jornalista americana Jessica Bennett a escrever o Clube da Luta Feminista – um manual de sobrevivência (para um ambiente de trabalho machista) em 2016, lançado este ano no Brasil pelo selo Fábrica 231. Com propriedade, pioneira na edição de questões de gênero,  assumiu também em 2016 a primeira editoria voltada para essa “lente” como diz. Jessica fala neste entrevista um pouco sobre seu  trabalho no New York Times e de sua luta em relação às questões de gênero e conta o que a levou a integrar um clube real de lutas feminista. “Esta luta, de fato, não tem que ser entre uns e outros, mas contra o patriarcado.

Extra Classe – Você recentemente assumiu como a primeira editora de gênero do New York Times, talvez uma das primeiras do mundo. De onde surgiu, digamos, essa vocação?
Jessica Bennett – Eu diria que foi na oitava série (risos), quando eu ajudei a fazer um walk out (cair fora) na minha escola, chamada “Skirtfest” (Festa da Saia), porque um dos meus melhores amigos foi expulso da escola por usar uma saia. Sempre me esforcei para transpor limites, questionar autoridade e lutar pela igualdade.

EC – Então desde a sua infância você usa, de certa forma, o humor para passar suas informações e ideias?
Jessica – Eu sou uma jornalista, primeiro. Então eu tento conseguir isso através da minha escrita. Mas também acho que há um poder incrível na utilização do humor como uma forma de incentivar as pessoas a falar sobre problemas desconfortáveis. Quando falo em questões desconfortáveis, não quer dizer que eu só escrevo sobre assuntos sérios. Eu tenho uma coluna chamada Command Z, que aborda todas as maneiras absurdas como a tecnologia moderna mudou a forma como nos comunicamos.

EC – Quais são algumas das questões cotidianas que você aborda em sua editoria de uma forma mais abrangente?
Jessica – Grande parte do meu trabalho é pensar caminhos para amplificar coberturas já existentes todos pela ótica de gênero. Questões de agressão sexual nos campi universitários; o que acontece na Arábia Saudita, agora que as mulheres estão dirigindo; outras conseqüências sobre a mudança da política do filho único na China; Divórcio em ascensão na África … Honestamente, eu poderia fazer esse exercício o dia todo (risos).

EC – Como surgiu a ideia de escrever o Clube da Luta Feminista?
Jessica – O meu clube de luta começou há cerca de uma década, quando eu era repórter da Newsweek (risos). Eu não o formei; na verdade foi uma das minhas mentoras – uma das mulheres que na década de 1970 processou a Newsweek por discriminação de gênero e cuja história eu havia escrito, o que me apresentou ao grupo do qual sua filha fazia parte. A maioria de nós tinha 20 e poucos anos e trabalhava em papéis criativos: escrita, televisão, cinema, produção, comédia, jornalismo, etc, e nos encontrávamos a cada dois meses – ainda o fazemos – para compartilhar conselhos, apoio e macetes do ofício de nossos respectivos empregos dominados por homens brancos (risos). Escrevi o Clube da Luta Feminista porque queria compartilhar esse espírito.

EC – Esse clube e o da sua literatura têm regras?
Jessica – Claro! Uma das primeiras regras do clube de luta era que nós não lutávamos apenas contra o patriarcado, mas, também. Como jornalista, eu estava cansada de escrever e ouvir sobre todos os problemas que uma mulher enfrenta e queria ser capaz de fornecer algumas soluções, algumas maneiras de lutar contra as besteiras. Eu juro que não estou apenas dizendo isso pra vender (risos), mas o Clube da Luta Feminista é o livro que eu gostaria de ter quando comecei minha carreira. É um kit de ferramentas para qualquer mulher que já tenha trabalhado e provavelmente algumas que ainda não estão trabalhando, bem como para os homens que nos apoiam.

EC – E qual o saldo dessa década do seu clube de luta?
Jessica – A maioria de nós tinha, digamos, uma certa baixa estima na época inicial, lutando para se levantar. Agora, ao longo dos anos, tem sido muito legal ver que as integrantes se levantaram e trazem outras mulheres junto com elas. Como te falei, permaneceu constante o nosso encontrar; continuamos a ter os ombros uma das outra e continuamos a promessa de ajudar outras mulheres ao longo do caminho.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

EC – Logo no início do Clube da Luta Feminista você, na forma de um verbete de dicionário, afirma que o Patriarcado é um sistema criado por e para os homens. Por outro lado, o que significa, de fato, um Clube de Lutas Feminista?
Jessica – Significa tratar outras mulheres como aliadas e saber que somos mais poderosas juntas. A única coisa mais poderosa que uma mulher autoconfiante é um exército delas.

EC – Qual a sua definição de feminista?
Jessica Bennet – A definição de feminista é alguém que acredita na igualdade entre os sexos; não que as mulheres sejam melhores que os homens, simplesmente iguais. Se você acredita nisso, então você é um feminista, quer você queira se identificar com essa palavra ou não. Eu me considero uma feminista com orgulho e espero que outros também acabem se considerando, mas meu sentimento é que o que é importante no final do dia é a ação que vem junto com a palavra, acreditando na igualdade e lutando por isso .

EC – Você chegou a fazer um perfil de Monica Lewinsky que gerou certa polêmica, antes de ser a editora de gênero do NYT e escrever o Clube da Luta Feminina. Me fale um pouco sobre isto?
Jessica – O movimento feminista certamente não apoiou Monica Lewinsky na época em que ela estava vivendo um pesadelo na imprensa. Acho que o movimento de mulheres convencional tem uma longa história de não levar em conta adequadamente as interseções muito reais de raça e identidade de classe e gênero. Então, certamente, há espaço para melhorias dentro do movimento e acho que o que estamos vendo ultimamente é uma abordagem muito mais intersecional ao feminismo, o que é encorajador.

EC – Existe ainda, apesar dos avanços que você falou, um certo preconceito, questões ainda não muito claras sobre feminismo e questões de gênero em geral. O que você diria as pessoas que ainda estão se sentindo hesitantes em explorar suas crenças devido a reações adversas?
Jessica – Para confiar no seu intestino (risos). Eu passei tanto tempo tentando me encaixar, me preocupando com o que as outras pessoas pensavam de mim, hesitando em dizer o que eu realmente acreditava porque não tinha certeza se era certo, inteligente ou bom o suficiente; ou estava preocupado em ser criticada, não ser perfeita o suficiente e assim por diante. E sabe de uma coisa? Quase todas as coisas que eu tinha medo de dizer, continuo acreditando nelas. Então, o que eu diria é: escute sua voz interior, tente não sucumbir à insegurança e defenda aquilo em que acredita. Agora, mais do que nunca, o silêncio pode ser interpretado como complacência e precisamos falar no que acreditamos e porque é certo e justo.

EC – Você disse que no início era insegura em expor suas crenças. Além da sua “mentora” citada anteriormente, quem mais ajudou você a ser a pessoa que é hoje?
Jessica – Honestamente, as mulheres do meu clube de luta. Elas são as únicas que me fazem rir e me ajudam a lembrar quando as coisas foram ou estão ruins. Eu não poderia ter escrito este livro sem essas pessoas. Eu não poderia ter alcançado a atual posição em minha carreira sem elas. Eu também diria que tenho muito respeito pelas lutadoras feministas que vieram antes de mim. Passei uma boa parte do tempo vasculhando velhos manifestos e escritos do movimento de mulheres dos anos 1970 enquanto pesquisava meu livro e descobri todos esses “clubes feministas de luta” de diferentes épocas que nunca chegaram aos livros de história, mas que deveriam.

EC – Por exemplo?
Jessica – Grupos que, embora não tenham nomes publicamente reconhecíveis, realmente pavimentaram o caminho. Aqueles como as mulheres de W.I.T.C.H. – a Conspiração Terrorista Internacional Feminina do Inferno –, olha o nome!, que encenou protestos por toda Nova York na década de 1970; os discípulos da verdade de Sojourner, que tentaram melhorar as condições de prisão para mulheres; ou as Vingadoras Lésbicas, cuja marca registrada tinha o objetivo de chamar a atenção para os problemas LGBT antes de falarmos sobre eles. Há também versões modernas desses grupos, que eu mostro ao longo do livro, como Las Brujas, uma equipe de skate latina no Bronx; as Hijas de Violencia, um grupo de mulheres na Cidade do México que perseguem assediadores de rua e pixam suas faces. Muitos desses grupos lutam contra o patriarcado sendo brincalhões e eu amo isso.

EC – Você falou em quem te inspirou. Agora, quem você espera inspirar com o seu livro?
Jessica – Qualquer mulher que tenha um emprego e qualquer homem que as apoie. Então, na verdade, todos (risos). Embora talvez não seja adequado para aquelas pessoas que podem ser ofendidas por uma ocasional bomba ou referências a minha #restingbitchface (Nota da redação: Rosto de fêmea em repouso).

EC – Todo o seu livro trata a luta de uma mulher no ambiente de trabalho de uma forma muito divertida, mas igualmente de forma séria nos conselhos. Em O Clube da Luta Feminista qual seria a sua dica preferida?
Jessica – Duas coisas. Primeiro, a regra três do clube de luta: nós lutamos contra o PATRIARCADO, não umas contra as outras. Eu acho que às vezes temos que nos lembrar que outras mulheres são nossas aliadas; não a competição. Segundo: encontre uma Boast Bitch (Nota da Redação: em tradução livre fêmea de ostentação). Ela é como o seu garoto de propaganda feminino. Ela se orgulha de você; você se vangloria para ela. Isso faz você parecer ótima porque estará recebendo créditos por qualquer coisa incrível que você faça (risos). Ter uma colega dessas é ótimo, pois você não será visto como uma pessoa que se gaba de si mesma, com sua puta vanglória – algo que pode ser de qualquer gênero, por sinal. Eu acho que esse truque é incrivelmente útil, em particular porque as mulheres, muitas vezes, lutam para se auto-promover e são percebidas por colegas como “braggy” (Nota da redação: algo entre uma pessoa convencida e egocêntrica) quando fazem isso.

EC – Você trata também em seu livro sobre o dito manterrupter. Algumas pessoas mais antenadas aqui no Brasil perceberam bem claro o que isto é em um programa nacional onde a pré-candidata à presidência do Brasil Manuela D’Ávila não conseguia concluir seu raciocínio porque era constantemente interrompida. Fale um pouco sobre isto.
Jessica – Estudos mostram que o manterrupter é uma realidade. Os homens falam mais do que as mulheres em reuniões de trabalho e interrompem com mais frequência. Na realidade, as mulheres têm duas vezes mais chances de terem a sua fala interrompida – por homens e mulheres – do que os homens. Mais chance ainda caso sejam mulheres negras.

EC – Para concluir, na sua opinião qual é o papel do jornalismo nas questões de gênero?
Jessica – No New York Times a gente acredita que a missão do jornalismo e do jornalista é ajudar as pessoas a entender o mundo. Nessa lógica, gênero é uma lente que nos permite uma narrativa global. E é por isso que abordamos assuntos relacionados a mulheres e feminismo, mas da mesma forma sexualidade, identidade de gênero, classe e raça, assim como negócio, política, ciências, esportes, família e saúde.

Serviço
Clube da Luta Feminista – um manual de sobrevivência (para um ambiente de trabalho machista)
Autora: Jessica Bennett
Tradução Simone Campos
Editora: Fábrica 231
336 páginas

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